Já percebi que adoro fazer textos que tenham alguma história oculta, peculiaridades que poucos conheçam. E para não fugir a essa “regra”, hoje as duas músicas escolhidas foram “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, da Legião Urbana e “A Orelha de Eurídice”, do Cazuza. Se os deuses do rock não fizessem Cazuza pagar um preço alto por sua vida louca, vida. E se Renato Russo tivesse composto a música para “A Orelha...”, essa seria a primeira e única parceria dos maiores poetas do rock nacional. Às vezes acho que seria pedir demais uma música assinada pelos dois. Já foi tão mágico poder ter dois poetas dessa grandeza vivendo suas respectivas fases áureas na mesma época.
“Quando o Sol...”, é um dos grandes hinos da Legião (chamar de clássico seria redundante, porque todas as músicas da Legião são clássicas, nem que seja para pelo menos uma pessoa, mas são!). Ela é fruto de uma fase mais introspectiva e espiritual do mentor e letrista da banda. A música faz parte do CD “As Quatro Estações”, que tem uma poesia que eu costumo chamar de erudita. Renato utilizou tantas referências para compor as letras (de um livro sobre budismo, que ele encontrou numa gaveta de um hotel onde a Legião ficou hospedada, até citações de “Os Lusíadas”, uma epopéia portuguesa escrita por Luís de Camões), que o CD pode ser considerado uma obra cosmopolita e não apenas brasileira. Mas chega de falar do CD e vamos à música.
O altruísmo de “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, é com certeza o ponto mais forte dessa letra, a preocupação do autor em nos dizer que o a humanidade é desumana, mas que ainda temos chances, é de uma visceralidade emocionante. A pessoa que no mínino não se arrepia quando Renato diz: “O Sol nasce para todos, só não sabe quem não quer...”, é porque é uma dessas pessoas que não querem ver o sol nascer, e sentem dor por se excluírem do mundo, e o fazem, porque tem desejo de não sentir dor. Renato realmente era um visionário, e tolos são aqueles que acham que suas composições são de fácil compreensão, pois só escrevendo esse post que entendi o que ele quis dizer com: “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo, de não sentirmos dor”. Até para sermos felizes nós precisamos sentir dor, às vezes, até o amor machuca, mas você desiste dele quando isso acontece...Ou segue em frente? Se desistir, vai sentir dor, por ter tido o desejo de não senti-la.
Ao contrário de Renato Russo, Cazuza escrevia sobre o egoísmo e sabia ver beleza nisso. É fácil achar bonito um texto que fala na terceira pessoa do plural, difícil é achar quem admire alguém que escreva na primeira pessoa do singular. Eu admiro!
“A Orelha de Eurídice” aborda o mesmo tema de “Quando o Sol Bater...”, com a diferença, que para encontrar altruísmo nas letras de Cazuza, você tem que ter ouvidos atentos, e garimpar cada letra desferida pelo poeta, que nos convoca para termos idéias juntos. E quando diz que: “Você na multidão, você diferente”, aponta para nossa cara e diz que devemos fazer algo diferente para mudar o rumo da história, que devemos acreditar que é possível mudar o mundo com nossos moinhos de vento. Por que nossa coragem some com o vento de meia-hora atrás? É a alma quem castiga o corpo, esta é a mensagem? Não é só a cicatriz que identifica o ser amado (lembre que o amor também machuca). Temos que achar uma maneira, não importa se está chovendo uma chuva sem vento. Lembra e vê que o caminho é um só.
No fundo... Eu já estou cansado de não gostar de mim!
By Eduardo
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