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terça-feira, 13 de abril de 2010

Encontros e Despedidas (MIlton Nascimento) X Só de Passagem (Pitty)

“Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força

que acordarás as fúrias do pálido e do frio,

de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,

de sol a sol sonha através de tua boca cantante.

Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.

Não quero que minha herança de alegria morra.

Não me chames. Estou ausente.

Vive em minha ausência como em uma casa.

A ausência é uma casa tão rápida

que dentro passarás pelas paredes

e pendurarás quadros no ar.

A ausência é uma casa tão transparente

que eu, morto, te verei, vivendo,

e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.” (Pablo Neruda)

O texto dessa semana, para não fugir à regra, foi parido num tempo maior do que deveria. Mas dessa vez, tenho o álibi, um assunto que justifica. É adiar o inadiável e estender por um tempo maior, o que inevitavelmente chegará, cedo ou tarde. Mas na verdade, é muito além do que eu planejava fazer. Quando pensei nas músicas em questão, estava com uma idéia inicial. Fatos nos últimos dias, colaboraram para expandir minhas idéias, aliados às influências que andei lendo, e como resultado, não sei onde essa bomba vai explodir.

Explico-me, para que entendam que o objetivo pode ser um, e o resultado final ser diferente: a minha idéia era falar da vida. De como estamos nesse mundo de passagem, entre erros, acertos, tropeços e saltos, tentando fazer valer a pena, tendo sempre pessoas ao nosso redor que nos influenciam. Tendo crenças que nos influenciam, tendo percepções do mundo que nos influenciam. Para isso, escolhi duas músicas que cabem certo com a minha idéia inicial. Daí pensei: como falar de vida e não abranger parte impreterível dela? Então, vários pensamentos relacionados à finitude da vida, me vieram à mente. E sim, no meio de tudo, falarei dela, a temida, ou a salvação. A evitada ou o fim do sofrimento. Morte, entre de forma sutil aqui, para que todos possam refletir sobre você, dessa vez com um novo olhar. Vamos lá, vamos pelo menos tentar.

Grandes influências de hoje, Milton Nascimento e Pitty, me ajudam com “Encontros e Despedidas” e “Só de passagem”. Não sei nem por onde começo. Se exponho minhas idéias e depois falo das músicas, ou vice-versa. Mas vamos tentar focar, e começar pela músicas, visto que são protagonistas desse blog.

Milton Nascimento fala de uma música que sempre me foi meio familiar. No tempo de escola, o meu Eu de catorze anos escreveu, certa vez, uma redação que falava sobre a vida. Falava sobre a vida como uma viagem de trem, onde podemos descer em várias estações para realizar grandes feitos, mas descer ou não é uma opção nossa, e reembarcar é nossa falta de opção, porque se ficarmos ali parados, não iremos a lugar algum. O embarque é só de ida, e se passarmos toda a viagem sem descer em estações para conhecer novos lugares dentro de nós mesmos, chegaremos ao fim da viagem sem ter tido nada de proveitoso. Okay. Chega do meu Eu de catorze anos, que foi desacreditada pela professora quanto à autoria. Ela queria saber qual livro utilizei, mas isso não vem ao caso.

Encontros e despedidas, de uma forma ou de outra, fala disso. E fala mais, fala do mundo de lá. O outro lado da vida. Ele quer saber noticias de lá, e saber quem está desse lado. Ele quer ser recebido por pessoas queridas, independente de que lado da vida esteja, seja a finita, seja a eterna. Ele gosta de poder partir sem ter planos, e poder voltar sempre que quer (espíritos são livres, espíritos só passam por aqui), nas nossas idas e vindas ao longo de várias vidas pela eternidade. A vida se repete na estação (mudaram as estações, nada mudou), o que mudam são apenas os protagonistas, com histórias parecidas ou divergentes, porém o que não podemos é ser coadjuvantes da nossa própria história. Tem gente que veio só olhar. Que sejamos quem chegue pra ficar, ou aqueles que vão pra nunca mais, para ancorar em um porto diferente, mas deixando uma marca de eternidade por onde passamos. E assim, vivendo a sorrir e a chorar, chegamos e partimos, de encontro aos dois lados da mesma viagem. A hora do encontro é também despedida, porque toda partida é a chegada a um outro lugar.

Momento de fechar ciclos e finalizar etapas. E de reencontros tão antigos que ficaram no esquecimento em nossa memória. A plataforma dessa estação, são as vidas que adiam sem explicação. Vidas que Pitty mostra por um olhar passageiro em “Só de passagem”. Ela diz que não é nada daquilo presente no universo em que vive, e sim está naquela situação de forma temporária, como um caixeiro viajante a espera do próximo destino. Não tenho cor nem cheiro, eu não pertenço a lugar nenhum. Porque posso estar em todos os lugares sem estar acorrentada a nenhum deles. Ela mostra nossa existência como uma fotografia. Um registro de um momento, um recorte no tempo, onde estávamos naquela cena, sob aquela lente, naquele foco, vestindo aquela identidade. Mas não significa que ficaremos ali, parados, com sorrisos congelados, pela eternidade.

Nada me toca, nem aprisiona. Como diz Paulo Leminski, “Esta vida é uma viagem, pena eu estar só de passagem”. Eu possuo muitas coisas, mas nada disso me possui. É como aquela história de “Desejo que ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga à ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem.”

O lance, é não inverter as peças do jogo e as ordens dos fatores, porque isso vai alterar todo o resultado final. Eu posso possuir coisas, mas não posso me aprisionar a elas, deixando que elas me possuam. É mais ou menos isso que as pessoas materialistas sentem. Elas são tão presas ao que tem e ao que desejam ser, que esquecem a que vieram e o que verdadeiramente são. E o que essencialmente importa. O necessário não é possuir nada. E tampouco se deixar possuir por invólucros temporários. Que sejamos espíritos livres, que passeiam por aqui, sem explicação, acima da carne e do metal.

Que aceitemos a complexidade que é viver e que consigamos lidar com o fantasma da finitude da nossa existência material sem nos assombrarmos diariamente, quando na verdade, deveríamos agradecer por cada dia que podemos nos reinventar e sermos algo novo. Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer, li certa vez.

Não há separação, nem distinção entre matéria e espírito. O que existe é uma liberdade maior quando conseguimos enxergar além dos nossos olhos. Eu posso (e devo) viver o aqui, e o agora, que pode ser o primeiro ou o último momento dentro desse minúsculo espaço de tempo na eternidade onde nos tornamos suscetíveis ao acaso fatídico. Esse espaço onde se valoriza demais pequenos gestos que fazem grande diferença, porque uma oportunidade perdida pode jamais ser recuperada.

O autor de “O Pequeno Príncipe” diz que o que se leva da vida, é a vida que se leva. Então, esse barco, quem conduz somos nós, tendo ou não experiência em navegar. Teremos que aprender a lidar com o mar calmo e o turbulento, sem ninguém para nos dizer pra que lado girar o leme. Mas devemos aproveitar as circunstâncias para nos fazer crescer em nossas certezas e nos permitir novos horizontes, sendo sempre nós mesmos, certos de que não seremos os mesmos por toda a eternidade, pois só o que está morto não muda. E querendo ou não, somos todos eternos, e estamos agora, infinitos enquanto duramos.

E se houver uma pedra bem grande no meio do caminho? E se uma encosta cair e tivermos que mudar o rumo, pegando um atalho ou um caminho mais longo? E se for tudo diferente do que planejamos, sonhamos? Se levarmos uma vida que não foi a almejada? Respondo parafraseando Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já não têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre ao mesmos lugares.É o tempo de travessia...E se não ousarmos fazê-la,teremos ficado para sempre,à margem de nós mesmos.”

Então, nossa próxima parada: viver o agora. Eternizá-lo. Porque devemos viver como se fossemos morrer no próximo segundo, para não gerar arrependimentos futuros. Frases clichês, que todos cansamos de ouvir, eu sei. Mas quando se trata de morte, muitos sentimentos entram em pauta: dor, irreversibilidade, saudades, inconformismo, indignação, impotência. E por aí vai.

Como diz Martha Medeiros, morrer é um verbo carregado pra se falar da nostalgia que a saudade traz, mas talvez seja o mais real. Porque a única saudade não saciada é a de quem não volta mais. Na nossa mente que entende que morte é o fim, é separação, é um eterno abismo entre duas almas que estavam ligadas, e que agora, tem um vão de separação. Um vão simples, na verdade, alcançável com um pulo. Um pulo de fé, esperança ou credibilidade no futuro que nos aguarda e no sentido que precisamos encontrar em nossas vidas. Não devemos esperar sermos poeiras de estrelas para que possamos brilhar. As próprias estrelas morreram há tanto tempo e querem continuar eternas.

Mas a nossa eternidade não começa quando a vida termina. Ela começa em atos bem vividos e palavras bem colocadas, nas frases certas, no tempo devido. Nos sentimentos vividos com a intensidade de um romance shakespeareano. Um velhinho barbudo e grisalho, adorado por toda a garotada que é fã do bruxo mais famoso do mundo, disse uma frase interessante: “Para uma mente bem estruturada, a morte é apenas a etapa seguinte”. Porém é muito difícil alguém estar tão estruturado que no momento da perda e da separação, tenha estrutura para agir com naturalidade diante do que deveria ser natural a todos nós. Ainda temos dentro de nós um algo, uma fagulha divina, que nos faz sensibilizar e nos sentirmos amputados em alguma coisa. É essa mesma fagulha que nos mantém como pessoas que podem fazer algo por um mundo melhor, porque ainda deixamos sangrar dentro de nós, emoções sinceras por algo temporariamente irreparável.

Morrer não dói, já dizia o poeta, que diz que as borboletas só vivem 24 horas. Mas isso é só uma questão de opinião. Há quem ache a morte bem dolorosa, para quem vai, e sobretudo, para quem fica desse lado. Acontece que certas coisas existem, independente de acreditarmos ou não. Independente da nossa fé e dos nossos princípios. A morte é uma dessas coisas. E todos temos que encarar isso, tendo preparo prévio ou não. O fato de que a vida continua (e se entregar é uma bobagem) também. Seja como vida eterna, seja com a pluralidade das existências, seja como for, e com o que se queira acreditar. Mas o fim absoluto não existe. O que existe, é o recomeço para algo novo. O para sempre, sempre acaba. E recomeça. Para dar lugar ao que é eterno. E aí, começo a pensar que nada tem fim. E não tem explicação, não tem, não tem...

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces, porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida. E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados, para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada, que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada.”

(Ausência - Martha Medeiros)

By Monica

Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/milton-nascimento/47425/

http://letras.terra.com.br/pitty/69133/

Sampa (Caetano Veloso) X Angra dos Reis (Legião Urbana)

Tentando encontrar duas músicas para falar no post dessa semana, minha louca mente conseguiu encontrar alguma relação entre a poesia concreta de Caetano Veloso e a melancolia existente na obra de Renato Russo. Por mais que eu ache o estilo poético de Renato mais parecido com o de Chico Buarque do que com o de Caetano, resolvi tentar levar adiante mais essa empreitada, e vou escrever sobre “Sampa” e “Angra dos Reis”.

A visão de Caetano sobre seu difícil começo naquele lugar que ele nada entendeu quando ali chegou, faz de “Sampa” não apenas um grande hino, mas nos faz pensar como somos fechados a tudo que é novo em nossas vidas, afinal, já perceberam que sempre afastamos o que não conhecemos, e nossa mente apavora aquilo que ainda não é mesmo velho. Caê sintetiza em sua letra - que a meu ver mais parece um depoimento - tudo o que ele viu naquele cenário, desde o povo oprimido nas filas, nas vilas e favelas, até a força da grana que ergue e destrói coisas belas.

São Paulo com certeza é o nosso grande exemplo de megalópole... Ou existe cenário mais moderno e apocalíptico do que aquele emaranhado de fábricas que soltam a feia fumaça que sobe, apagando as estrelas. A grande contradição é que desta mesma fumaça nasce a esperança de quem vende e compra o sonho de feliz cidade, e os muitos brasileiros que não encontram oportunidades em nosso árido e sofrido sertão, aprendem depressa a chamá-la de realidade. Afinal, “Sampa” é isso... O avesso, do avesso, do avesso.

Na verdade, todos que chamam a terra da garoa de feia ou muitos destes adjetivos nada populares destinados a maior capital do país, nada mais é do que nosso exercício diário de narcisismo. Digo isso, porque como bom carioca não consigo ver beleza na capital paulista, mas não se importem com isso, até porque, Narciso sempre acha feio aquilo que não é espelho.

E mesmo com a dura poesia concreta das tuas esquinas e a deselegância discreta das tuas meninas, com certeza meu coração vai bater mais forte quando eu cruzar a Ipiranga e a Avenida São João.

Saindo da Pan-américas de Áfricas utópicas... Vamos para Angra dos Reis com Renato Russo. Encasquetei que poderia escrever sobre essas duas músicas e vou continuar nessa loucura.

Renato nunca é fácil de entender, porque como ele mesmo diz na sua letra: “tem dias que tudo está em paz, e agora os dias são iguais”. Devo concordar com o poeta. Desde que Renato se foi em Outubro de 1996, os dias tem ficado cada vez mais iguais.

“Angra dos Reis” é um lindo e comovente depoimento (tá aí o link das duas músicas, ambas são depoimentos de seus compositores) sobre a solidão. Essa dor que dói no peito e nos faz lamentar por vários momentos que deveriam ter acontecido, mas que infelizmente vão nos deixar apenas com saudade de algo que ainda não vimos.

Caetano e Renato na verdade, falam de solidão, mas cada um ao seu estilo. Enquanto Caetano fala da solidão por estar em uma nova cidade, num lugar que ele ainda irá descobrir e que ao descobrir ficará fascinado. Renato nos apresenta a solidão como ela é de verdade... Feia, cruel e dolorosa. E como ele entendia de solidão como ninguém, ainda utilizou Nietzsche no trecho da letra em que ele diz: “Pode rir agora que estou sozinho, mas não venha me roubar”. O legionário não queria que lhe roubassem a solidão sem que lhe fosse oferecida uma companhia de verdade.

No fim de tudo... Renato nos mostra o quão cruel é a sensação de solidão, porque no momento em que as estrelas começarem a cair, nem ele mesmo sabe pr’onde é que vai fugir. E se ao invés de fugir, ele quisesse apenas ir brincar perto da Usina? Quer saber? Deixa pra lá, afinal, a Angra é dos Reis.

By Eduardo

Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/22504/

http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/41670/

quarta-feira, 24 de março de 2010

Do Fundo do Meu Coração (Roberto/Erasmo Carlos) X É mágoa (Ana Carolina)

Pra variar, o post dessa semana veio com atraso. Sete dias depois, eis-me aqui, terminando com mais uma espera do meu assíduo Edu. O tema é simples e complicado ao mesmo tempo. Não tem quem não tenha sentido e quem não tenha ouvido falar, mas o turbilhão de sensações que o tema nos faz sentir, aumentam a minha responsabilidade em algo tão frágil e difícil de abordar: a dor de um amor não resolvido. Ou o fim de um amor que urge em viver. Ou apenas, dor de cotovelo, se assim preferirem. Pra tal feitio, uso de “Do fundo do meu coração”, de Roberto e Erasmo - que aliás, fica belíssima na voz da Calcanhoto – e “É mágoa”, da intensa e sentimental Ana carol.

Falar desse tema é algo desafiador, pois exalta a parte hemorrágica que há em mim, que adora e necessita falar de dor de cotovelo, porque cada um tem uma visão tão diferente dos sofrimentos de amor,e é sempre bom ver uma situação por novos ângulos.

Começo meu ritual: leio as letras e começo ouvir as canções em pauta, e sangra pelos meus poros uma vontade de falar tanta coisa que me vem à mente e não consigo traduzir em palavras. Droga. No fim das contas, vou ser incompleta. Mas quando se trata de fim, é assim mesmo. Sempre nos sentimos amputados, faltando um pedaço vital nosso, que não entendemos como sobreviveremos sem.

Na letra de Roberto e Erasmo, o fim é tratado com lamentos e uma mágoa dolorida. É um alguém que se lamenta ainda amar e se entregar a um outro alguém, que pouco se importa com as feridas que abre nesse coração que ama sem receber amor. E essa pessoa, intensa, que ama e teme dizer seus sentimentos cada vez que é questionada sobre eles, esquece do seu orgulho, se sufoca em sua solidão, esquece o desprezo que sofreu e tenta novamente se entregar, achando que agora, será diferente. E percebe a estupidez quando o doce fica amargo e o sorriso do abandono é indiferente às cicatrizes que permanecem sangrando em sua alma.

Já Ana, não padece muda curtindo a sua dor. Ela grita. Ela tem raiva, mágoa viva, latejante em seus olhos coléricos, de quem tem pulsando dentro de si a vontade de se libertar de todo o mal que a indiferença aos nossos sentimentos nos faz sentir. Ela já diz de antemão, que está com três pedras na mão, portanto, que o semeador desses sentimentos passe longe. Ela diz que “só queria distância da nossa distância”, como quem quer distância de estar longe, porque sente saudades e quer ficar perto. E ao mesmo tempo, como quem quer distância disso tudo, porque não agüenta mais a situação e quer mesmo sair procurando uma contramão.

Ela sabe que cada um devia ficar na sua, mas quer, de toda forma, atingir quem a fez sofrer. E quando tenta fazer isso, se arrepende, por que lá no fundo do seu coração, teme acertar quem ela queria acertar. E quando vê que não dá em nada, percebe que não tem nenhum valor, porque não conseguiu acertar o coração. Pior que ter boca e não falar, ter olhos e não ver, é ter coração e nada sentir. E ela via um coração que era imune a qualquer atitude dela.

Ana, se vê como o alvo, de tanto que tinha sofrido. Na canção de Roberto, ele também se vê como alvo, carregando consigo as cicatrizes desse amor que o faz ficar ali, chorando a mesma dor e tendo que saber como é viver sem a pessoa amada. Ambos se sentem sós, um que tinha até a sua solidão na dela, outro, depois de tanta solidão, não querendo a volta nunca mais. Acabe com essa droga de uma vez, não volte nunca mais pra mim. E se eu for embora, não sou mais eu. Porque eu, nunca iria embora e te deixaria pra trás. Só que água de torneira não volta pelo ralo. E eu vou embora como ela. Adeus. Ponto final.

Será que com o fim decididamente decretado, tem-se a garantia do fim da dor lacerante?

A raiva, não ajuda em nada. Lamentar, muito menos. Porque nenhuma dessas alternativas é garantia de um coração mais leve e uma vida mais aliviada, se libertando dos fantasmas que tanto nos angustiam. Somos meros mortais, choramos água com sal. Mas o que tem uma importância relativa pra nós, fica guardado em um lugar especial, um lugar inatingível que não gostamos que seja afetado, nem destruído. E por isso, as dores demoram a se curar, porque não queremos nos libertar de tudo aquilo, porque a parte sonhadora que há em nós ainda acredita que um acontecimento extraordinário irá mudar o rumo das coisas e consertar os erros, fazendo a relação ser retomada de forma mágica.

Grandes acontecimentos milagrosos só acontecem em filmes água com açúcar, e a realidade é um pouco mais amarga que isso. E engorda um bocado, contraditoriamente. Uma relação não precisa apenas de amor, porque ele só não basta. Ela exige, sim, muito esforço de ambas as partes e o reconhecimento dos passos errados, para que não se estabeleça uma guerra de culpas que termina em tragédia.

E se nada adiantar, ainda há a renovação. Todo fim leva ao começo de algo novo. Temos medo do novo, e de reviver situações e repetir sofrimentos, mas só há como saber vivendo, experimentando, porque as delícias que nos envolvem devem ser degustadas como pratos únicos e sem nos lambuzarmos, que gosto tem?

Citando uma frase de um filme bom que vi esses dias, “500 dias com ela”, a menina, ao aconselhar o irmão, que está abalado pelo fim de um amor que ele acreditava ser mais perfeito que tudo, lhe mostra, que na verdade, não era bem assim que as coisas funcionavam. Mas era apenas esse o ponto de vista dele da relação.

E ela lhe diz “Quando você olhar pra trás, dê um segundo olhar, e tente não ver apenas o lado bom”. Com isso, ela o faz perceber que esse amor perfeito era apenas uma ficção de sua mente, porque no fim das contas, amor mesmo, só ele sentia. E amor é um fluxo de ir e vir, não pode simplesmente ir e não voltar, ele precisa ser retroalimentado.

“Pra terminar, dizer que o amor chegou ao fim, esqueça de me perguntar se ainda há amor em mim”, diz Ana em outra canção. Porque quando ainda há amor de uma das partes, a sensação de fim não chega, fica uma idéia de “pausa para intervalo” como se a qualquer momento fossemos apertar o play e seguir em frente, mas não é assim. Isso de “dar um tempo” não funciona, porque, ou o amor existe, ou não.

Quando o tempo do amor passa, e o tempo age no desgaste dos sentimentos que deveriam se renovar todos os dias, não há nada que possa ser feito além de encerrar decentemente uma história que teve começo, meio e fim. E o final feliz? Fica pra mais tarde, após virar a página e iniciar o próximo capítulo. De preferência, sem repetir os erros. Contando coisas bonitas. E até lá, devemos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe tanto pra trás, o mundo começa agora. E nós, apenas começamos.

(Obrigada, Boa noite.)

By Mônica


Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/ana-carolina/75939/

http://letras.terra.com.br/roberto-carlos/48582/

Vaca Profana (Caetano Veloso)

O post desta semana é muito importante para mim por dois motivos. Por este ser o primeiro post depois daquela miscelânea de culturas e estilos que foi na semana passada com o “Clube dos 5” e também porque a música de hoje, com certeza integra a lista de 5 músicas da minha vida.

A escolhida desta semana é “Vaca Profana”, grande hino anti-caretice de Caetano Veloso, que entrou para história na clássica gravação de Gal Costa. Considero a letra desta música fascinante. Caetano grita contra toda caretice e toda hipocrisia existente não só na sociedade brasileira, mas em todo mundo, porque a letra tem um estilo totalmente cosmopolita.

Assim como Caetano, respeito muito minhas lágrimas, pois elas com certeza são o resultado dos percalços que encontrei pelos caminhos da vida, elas são os meus ensinamentos e isso faz com que respeite ainda mais minhas risadas, prova cabal da minha vitória sobre os sacrifícios impostos pelos caretas de Paris e New York, mas sem mágoas, estamos aí.

Quero que pinte o amor Bethania, mas em composição cubista, porque amor de forma convencional não me atrai. Gosto dele totalmente despudorado, sem vergonha e sem culpa, para que minha vida seja escrita ao lado de uma mulher sagrada, como a vaca profana da letra.

Quero seguir a “movida Madrilenã”, morrer em Barcelona e ver picassos movendo-se por Londres. Quero a Bahia onipresente na minha vida, ver o Rio com seu belíssimo horizonte, sempre perto do mar e longe da cruz. Porque o legal é ser profano, to fora das coisas sagradas.

Sim, sou tímido e espalhafatoso, exatamente como uma torre traçada por Gaudi, gosto dessa total sensação de não saber o que fazer e agir sem pensar, o anarquismo sempre me seduziu mais, assim como aquilo que obviamente não presta, afinal, a vida quer meu bem, meu mal.

Quero que meu mundo Thelonius Monk`s blues, seja tão infinito e irreal quanto São Paulo, quero me perder no meio da selva de pedra, pois afinal de contas, é se perdendo que se acha, já dizia o poeta.

Mas eu também sei ser careta, de perto ninguém é normal, acordo de mau humor, sou ignorante com as pessoas que me amam, não digo “eu te amo” naquele momento oportuno, penso demais antes de agir e penso de menos antes de falar.

Dona das divinas tetas derrama o leite bom na minha cara e me dá um calmante e diz que é pra eu ser bom, porque no mundo um grande amor encontrei e não quero perdê-lo. Às vezes até que sigo em linha reta, mas sempre correndo na direção contrária, sem pódios de chegada ou beijos de namorada.

Antes de chegar ao final quero pedir piedade, pois há um incêndio sobre a chuva rala, e no fundo, somos iguais em desgraças, então, por que não damos as mãos e cantamos um blues da piedade, para que a deusa de assombrosas tetas dê à toda essa corja que está no poder grandeza e um pouco de coragem.

E não esqueça... La leche buena toda en mi garganta e la mala leche para los puretas.

By Eduardo

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44789/

quarta-feira, 10 de março de 2010

Clube dos Cinco

Caros leitores, amigos e bisbilhoteiros de plantão. Essa semana, resolvemos inovar, reinventar, e criar mais um tópico utópico para dar cores ao nosso espaço musical pluriexistencial.

Resolvemos fazer um intercâmbio temático. Pra isso, nada melhor que...Amigos. Tema? Já devem ter percebido, e puxo sardinha pro meu lado, nosso lado, nós, mulheres. Que temos um dia internacional, que nesse espaço, virou uma semana internacional.

Então, convidamos amigos queridos e leitores especiais do nosso blog, pra falarem de músicas com o tema mulher. E eles foram além do nosso alcance. Nos surpreenderam, empolgaram, e nos deram a honra de palavras da mais alta categoria, agora postado nesse espaço. Espero que leiam, apreciem e possam sentir o que nós sentimos ao ler.

Queridos amigos, Obrigada! Isso foi muito importante pra nós, e a parceria se reacenderá em outras oportunidades. Para os que passarem curiosos, sendo mulheres, deliciem-se. Sendo homens, percebam. O mundo existe com a soma magnífica entre um homem e uma mulher. Mas sem a existência dela, não haveria cor, doçura e encantamento.

Tudo bem, meninos...É melhor vocês se cuidarem, ela vai partir seu coração em dois, em alguns momentos. Ela pode ser uma provocadora que faz coisas pra agradar. Garotinho, ela vai sorrir, ela vai te fazer de bobo, ela é uma mulher fatal. Todas, doidas ou santas, são mulheres fatais, com partes adormecidas e partes ensandecidas dentro de seus universos de pimenta e mel, com cheiro de flor. Mas acima disso tudo, mostrando seu lado angelical ou mulher fatal, ouve o jeito que ela fala, perceba o jeito como ela anda. Ela é uma boneca perfeita...*

Mônica (E seu Edu)

* Com trechos de “Femme Fatale”, Velvet Underground

Luiza (Tom Jobim) X Beatriz (Chico Buarque)

O post dessa semana é especial pra mim, por vários motivos: pelo MEU dia internacional, por termos convidados especiais e por falar de músicas com um significado especial: Luiza, de Tom Jobim e Beatriz, de Chico Buarque. Músicas especiais porque parecem traduzir o infinito particular que existe em cada uma de nós, pequenas deusas em terra de mortais. Luiza é especial em particular pra mim, porque um dia, do meu ventre para o mundo, a Luiza brilhará. E Beatriz, cuja musa inspiradora de Chico se chama...Marieta Severo, sua ex-esposa, que é atriz. Ser atriz. To be atriz. Beatriz. Logo, fala um pouquinho de todas nós, "Beatrizes" ou não. "Atrizes" ou não, mas que somos protagonistas das nossas próprias vidas. Autoras dignas de oscar das nossas histórias reais.

Beatriz é como uma bailarina, leve e delicada, dançando por onde quer que passe. Ela é moça, porque podemos ser jovens em todas as idades. É triste, porque carregamos fardos, por vezes, demasiadamente pesados. É ao contrário, porque viramos do avesso e temos fases: TPM, euforia,carência, melancolia. Ela é pintura, perfeita, feita à mão: é um quadro e uma escultura, com mil perfis em um só, como toda boa atriz: é estrela, divina, comédia, mentira. São papéis que interpreta, em lares que habita, com paredes de giz, frágeis e passíveis de desmoronar, como louça, que evaporam como éter, são insanos como a loucura, pré-montados para espetáculos como cenários de sua vida. Nada é constante, nem ela o é. Um dia, dança no sétimo céu. Em outro, chora num quarto de hotel.

Pra entrar em sua vida, é preciso aprender a andar sem os pés no chão, é aprender a arriscar-se, pois "para sempre" é por um triz. É preciso não temer
desastres, tragédias, terremotos, porque pode ser perigoso ser feliz.
Sempre há quem peça bis, nós somos todas meio assim. Divinas estrelas a decorar nossos papéis, bailarinas de outro país, prestes a despencar do céu, mas com um anjo a nos passar o chapéu.

Luiza é o outro lado que há em nós, que flutua, navegando no azul do firmamento, entre um silêncio em câmera lenta e um trovador cheio de estrelas. Amadores apaixonados tentam esquecê-la, mas são aprendizes do seu amor: eles desejam sempre os desejos dela, e querem ser exorcizados por essa vontade incontrolável de matar a sede de paixão que ela desperta.
E ela se mantém forte, aparentando distância. Embaixo dessa neve mora um coração?

Acorda, amor, que existe um coração que bate, uma mente que seduz, uma alma enigmática que atrai os sete mil amores guardados somente pra ela. Ela, com raios de sol nos cabelos, rosas na boca e um céu inteiro ao seu dispor, com uma lua a iluminar os sonhos e com as estrelas de um trovador envolvido pelo seu mistério.

"Luizas" e "Beatrizes" ganham canções de seus admiradores. "Luizas" e "Beatrizes" nada mais são do que as nossas versões, nossas faces, nossas vidas paralelas que convergem em um só ponto. A multiplicidade de um ser ímpar. O universo de sentimentos que se resume em um sorriso ao receber uma flor de um apaixonado, uma lágrima com o nascimento de um filho, uma lembrança de um momento especial, um novo patamar alcançado.

Todas somos bailarinas equilibristas, sensíveis, resistentes, choronas, determinadas, sensuais, princesas. Andando na corda bamba entre o nosso lado doce e o lado amargo, e despertando a fera, o bicho, o anjo e a mulher que existe no íntimo das nossas vaidades. Em comum, temos: esse ar de mistério e sedução, que desperta o amor, a proteção, o desejo, a paixão. E um pouquinho mais. E nesse vai-e-vem, entre arriscar, cair e se reerguer como mulheres maravilhas, continuamos. Sem parar de dançar. São dois pra lá, dois pra cá.

By Mônica

Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/tom-jobim/20019/

http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45115/

Duas Vezes Cazuza: Bete Balanço X Mulher Sem Razão

O post desta semana é muito especial para mim (acredito que para todos os envolvidos na verdade). Além de homenagearmos as mulheres pelo seu dia, Monica e eu, postaremos textos de amigos e fiéis leitores do blog que aceitaram participar dos nossos tópicos utópicos.

Como de costume, me empolguei demais com o tema escolhido, vibrei com as músicas que selecionei para o texto, mas na hora de sentar para escrever... Nada. Detesto esses bloqueios criativos que sempre me assombram em momentos importantes. Mas vamos lá e veremos no que vai dar isso aqui.

Escolher músicas que tivessem como tema principal as mulheres não é uma tarefa muito difícil, pois todos os grandes poetas da MPB já fizeram suas homenagens para essas criaturas que merecem também nossa admiração. Minhas escolhidas para este texto são: “Bete Balanço” e “Mulher Sem Razão”, do meu grande poeta, Cazuza.

Não passarei muito tempo explicando minhas escolhidas, quero dizer apenas, que Cazuza em suas letras expõe duas grandes características femininas, a passionalidade (“Mulher Sem Razão”) e o lado sonhador que toda mulher tem dentro de si (“Bete Balanço”).

Em “Bete Balanço”, o poeta conta a história da mulher que tem um sonho e não dança, que corre atrás dos seus ideais e não permite que nenhuma cara triste que finge que ela não existe atrapalhe seu futuro, mesmo que este seja duvidoso, cheio de grana e dor. Essa síntese da letra, mostra apenas como as mulheres são capazes de lutar por seus objetivos. Essas guerreiras têm sempre que matar um leão por dia, para mostrar pra esta sociedade machista que quem vem com tudo não cansa. E vão continuar fantasiando segredos para chegarem ao ponto que elas almejaram. E se depois de chegar lá, elas verem que o paraíso é perigoso, não tem problema, elas vão seguir a sua estrela e correr atrás do seu brinquedo “star”.

Já “Mulher Sem Razão” expõe o lado passional, quase submisso da mulher, que é tratada como um vento que passou por seu homem e mesmo assim aceita viver essa vida de migalhas, sem reparar que ela é capaz de mudar tudo ao seu redor, como uma força da natureza. Essa mulher finge que não repara nas verdades que lhe falam e sente medo de partir para um lugar aonde ela sabe que vai brilhar.

A escuridão do quarto é a companheira do seu coração, que bate travado e com medo de cair na realidade, fada de quem não tem uma vida própria e serve apenas como coadjuvante desta festa na prisão que se tornou sua própria vida.

Sonhar só não tá com nada, o que ela deve fazer, é pegar um avião e partir, para quem sabe um dia ouvir aquela canção que não toca no rádio

Betes balanço e mulheres sem razão fazem parte do nosso cotidiano que nada tem de poético, mas que com certeza é amenizado com a presença passional, emocional, visceral e sonhadora das mulheres, que sempre encaram o mundo com um olhar de quem que pode vencer todo e qualquer desafio.

By Eduardo

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