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terça-feira, 13 de julho de 2010

"O Caderno" (Toquinho), Por Tainá

Lápis de cor, brincadeiras, fim de tarde, ciranda, pó de pir-lim-pim-pim, tintas coloridas, a casa, a montanha, duas nuvens no céu, o sol a sorrir no papel... Agora, sinto cheiro de saudade. Saudade das minhas coisinhas que outrora valorizadas, agora estão esquecidas dentro de alguma gaveta velha; meus diários, minhas cartinhas, meus cadernos. Caderno que me acompanhou do meu primeiro rabisco e ainda me acompanha depois que surgiram meus primeiros raios de mulher.

Um caderno. Companheiro fiel que está presente nos momentos mais lindos de sua vida e também nos tristes. Um caderno, que sofre junto nas provas bimestrais, ajuda a resolver problemas e é sempre o confidente fiel. Um caderno, discreto escudeiro de fugas e desabafos. Um simples caderno, que se mantém firme se o pranto vir a molhar seu papel, ou quando a vida se abrir em um veloz carrosel e o papel forem rasgados. Assim como um amigo.

Olhar pra trás e lembrar-se do passado é como se, de repente, batesse uma ventania forte no seu rosto, fazendo você fechar os olhos e reviver as brincadeiras, os sorrisos, a molecagem e as amizades leves e inocentes da infância. E depois se lembrar dos amigos que você talvez tenha feito no colegial, mesmo com as confusões adolescentes e as intrigas de meninas malvadas típicas de colegial. E pra quem cresceu na rua e em bairro pequeno, vai lembrar-se dos amigos-vizinhos que brincaram de esconde-esconde e elástico, quando pivetes, e ainda hoje continuam a serem seus amigos. Também existem aqueles amigos que moram longe, de uma distância que faz doer no peito, mas nos promovem sorrisos quando, por exemplo, vemos algo por perto que nos lembre o tal amigo. Tem aquela galera que possui o mesmo sangue que você e que te acompanha desde seu nascimento. Companheiros de farras, de festas e de bares. Suas amigas mais grudadas que estão sempre com você, em qualquer lugar, a qualquer hora, pra farrear, fofocar e dar risada. Os amigos coloridos. Aquela galera do mal que nunca te acrescenta nada de bom, mas a companhia deles é sem igual. Amigos de curso, de trabalho, suas alegrias diárias. Aqueles que já se foram. Aqueles que são seus amigos e você nem percebe. Nossos amiguinhos animais. Os camaradas que não têm tanto contato ou intimidade, mas são bons amigos. Pra quem nem tem tanto amigo assim, mas os poucos que têm já preenchem de alegria o coração.

E pra você, meu amigo-caderno, só peço um favor, se puder: não me esqueça num canto qualquer.

(À minha querida amiga-mãe-caderno, Nine.)

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/toquinho/87320/

Tão brilhante

Assim, como uma estrela

Intensa, menina flor, inteira

Nada apagará. O brilho da nossa amizade.

Amiga, Tainá.

"Amigo é Pra Essas Coisas" (MPB-4), Por Edilson

Um diálogo é a estrutura dessa música que retrata o encontro de dois amigos num boteco, universo masculino onde ‘’machos ’’ conversam sobre política, futebol e claro, mulheres. Mas entre coçada, cusparada e contagem de vantagens, consegue se achar um lugar onde nascem verdadeiras amizades .

O sujeito chega ao bar depressivo por causa do término do seu relacionamento, é engraçado como ele primeiro solta uma indireta para que o outro pergunte o que houve:

- A vida é um dilema

- Nem sempre vale a pena

- pô...

- o que é que há?

- Rosa acabou comigo

Embora a amizade retratada na música não tenha laços muito concretos, na sua essência, estão ali representados tudo que se espera de um amigo: preocupação, carinho , conselho e até o nada aconselhável dinheiro emprestado.Tudo de um jeito bem despojado e malandro, bem ao estilo de Aldir Blanc um dos seus autores.

Quem nunca chorou no ombro de um amigo a dor de um amor perdido e ouviu deste, a frase:

- Pra frente é que se anda

Amizades são como diamante bruto, que com o tempo você vai lapidando e ela vai ficando cada vez mais bonita, clara, transparente, reluzente e como tal, podem ser duras nas horas certas e te colocar de novo no eixo quando saímos do prumo.

Encontrar amizades é algo que requer muito mais do que simplesmente sair por aí nas festas e baladas da vida, lá talvez você encontre candidatos a esse posto que somente o tempo e as circunstâncias irão definir, se eles são merecedores de tal cargo.

E quanto aos dois amigos da canção, se despedem afirmando que o apreço não tem preço, e eu acrescento que o preço é o próprio apreço de um pelo outro e realmente não tem pagamento melhor do que esse. Pois a final de contas amigo é pra essas coisas.

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/mpb4/47528/

Primo, amigo, irmão, mentor e principalmente amigo. Acho que todo mundo deveria ter um Edilson em suas vidas. Suas palavras nem sempre são as certas, mas com certeza são as que precisamos ouvir (é ambíguo eu sei, mas não existe ninguém mais ambíguo que ele).

Amigo, Edilson.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Queridos Amigos

Esse será um mês diferente, mas não menos utópico que os demais. Diria até, mais, e além. Como é o mês onde se comemora o dia do amigo, são nossos amigos que estarão aqui, fazendo as honras, com textos sobre amizade. Eles, diversos em idades, profissões, sexo, ideologia, espaço físico, sonhos, desejos, segredos. Eles, idênticos em sensibilidade, companheirismo, altruísmo, e um algo diferente que os tornam indispensáveis, essenciais, únicos, insubstituíveis. Eis aqui. Simples, como foram quando nos cativaram. Simples, como a amizade deve ser, para trazer doçura à vida e eternidade à nossa credibilidade no mundo. Eis aqui, uma parte brilhante e fundamental de mim, de nós, os sortudos que os mantém bem guardados. Com açúcar e com afeto.

"Canção da América" (Milton Nascimento) X "Minha Vida" (Rita Lee)

A idéia desse mês, eram dois amigos por semana, falando de amizade, e depois que todos se pronunciassem, entraríamos Edu e eu, para fechar o tema com nossos posts. Porém, contratempos, é isso aí. Abriremos o mês, a ordem dos fatores não altera o conteúdo. E para falar desse assunto, presente em nossa vida, simples e complexo, doce e por vezes, diverso, estou eu aqui, com “Canção da América”, de Milton Nascimento e “Minha Vida”, de Rita Lee.

Quem não tem amigos? Todos experimentamos, ao longo de nossas vidas, diversas vezes, o sabor de uma amizade verdadeira e talvez o de uma amizade simulada. Levamos conosco, afetos sinceros, deixamos pra trás, personagens inventados. O tempo passa, os dias vão e vem, mas quem ficou, no pensamento voou. E quem voou, no pensamento ficou. Porque AMIGO é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, do lado esquerdo do peito. Dentro do coração. Assim eu ouvi, certa vez, numa canção que na América ouvi. A letra que sempre me emociona.

Quem nunca chorou ao ver um amigo partir? Pra um outro país, uma outra realidade, uma outra filosofia de vida, pra um outro mundo, para um outro plano. Não importa o tipo de separação: física, emocional, espiritual. Mesmo esquecendo a canção, com a lembrança o outro cantou. Mas se você não pode ser forte, seja pelo menos humano. É difícil quando alguém importante não pode estar ali, mais uma vez, dividindo um momento crucial de nossa existência. Todo mundo é parecido quando sente dor, mas só verdadeiros amigos ouvem a voz que vem do nosso coração, mesmo que o tempo e a distância digam não.

E guardado debaixo de sete chaves, ficam as lembranças, dos que passaram e passam por nós. Dos que permanecem e dos que deixaram apenas marcas. Tem aquela amiga que era companheira de aventuras, de passar a noite fora e acordar no estacionamento do supermercado pra voltar pra casa de manhã. Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei. Tem a amiga que cresceu com você, com promessas de um futuro onde tudo seria dividido, e de alguma forma, isso ficou numa janelinha encantada que sempre vai esperar acontecer, mesmo que um oceano inteiro as separe. Cenas do meu filme em branco e preto. Tem a amiga que madrugou pra te levar pra fazer uma prova, que viajou com você por dias inesquecíveis, que te proporcionou a primeira chance de dormir fora de casa. Personagens do meu livro de memórias.

A que estudava com você, madrugadas adentro, para provas na faculdade, fazendo mais bagunça do que estudando. Aquela que você mimava enquanto ela guardava uma vida dentro de si. As histórias, os caminhos. A amiga que você conheceu pela internet e nem se lembra mais que foi assim que se conheceram. Que se visitam com freqüência, ou pelo menos nos aniversários. A amiga que você conheceu pela internet, e só ela entende suas piadas, e só ela está com você todos os dias, te vendo rir e chorar, mais perto do que parece. Entre todos os amores e amigos, de você me lembro mais. Aquele amigo com quem você teve inesquecíveis momentos e que mesmo sumindo por vezes, não deixa o vento o levar embora. Que o vento levou, e o tempo traz.

Aquele amigo que você conheceu através de outra amiga, e que hoje, você não vive sem. Daria a vida por ele. Entre corações que tenho tatuados, de você me lembro mais. Aqueles que eram seus amigos, e você apresentou pra outros amigos seus. O destino que eu mudei. Aquela com quem você dividia seus momentos adolescentes, de tietagem, jogos em tardes intermináveis. A que te viciaria em algo tão legal e benéfico, que te traria um mundo inteiro a descobrir. Que foi pra longe, e está sempre na memória. Desenhos que a vida vai fazendo. Aquela amiga que você conheceu por ter perdido alguém especial, e como “recompensa”, ganhou algo tão bom que nem podia acreditar. Aquela que se parece tanto com você, que assusta. A que você gosta de cuidar como se fosse mãe dela e a que você vê muito raramente, mas que é tão especial, que fica se perguntando por que as oportunidades de conviver estão ficando tão poucas, nessa vida corrida que nos toma tempo para ser gente grande. Tem pessoas que a gente não esquece nem se esquecer.

Tem aquela amiga que te deixou cedo demais, e nunca será esquecida. De você, me lembro mais. Tem aqueles que te deixaram por opção, e deixaram um espaço vazio que não dá pra explicar a sensação. Desbotam alguns, uns ficam iguais. Tem aquela que era pra ser mãe, mas é amiga. Porto seguro onde eu voltei. Meu mar e minha mãe. Aquele que era pra ser pai, mas te escuta. Meu bálsamo benigno. Aquela que é o sonho de todo mundo. Amigos como irmãos. Irmã amiga. Desde o início estava você. Tem aquele que já é especial por si só, mas não basta ser amor, precisa ser amigo. Não basta estar na alma, ocupa o coração. Entre todas as novelas e romances, de você me lembro mais. Mas venha, o que vier, qualquer dia amigo a gente vai se encontrar. De vocês, não esqueço jamais...

“You just call out my name,

and you know wherever I am

I'll come running,

to see you again.

Winter, spring, summer or fall,

all you have to do is call

and I'll be there,

You've got a friend.”

By Monica

Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/milton-nascimento/27700/

http://letras.terra.com.br/rita-lee/63084/

"O Poeta Está Vivo" (Frejat)

Bom... Meu post desta semana deveria ser entregue apenas no final do mês, mas visto que alguns imprevistos aconteceram, terei que me apressar e escrever esse texto que me traz arrepios só de pensar.

Esse mês em decorrência do Dia dos amigos, Monica e eu resolvemos convidar de novo aquela galera que participou do Clube dos 5, em nossos posts em homenagem ao Dia da Mulher, com a adesão de mais três amigas. Organizei-me milimetricamente da forma que nunca faço, e escolhi a música que seria usada com um mês de antecedência, criei alguns esboços para o texto e pensei em começar a trabalhá-lo pelo menos duas semanas antes de postá-lo, mas agora me vejo tendo que fazer o texto mais rápido do que imaginei, e sinceramente, estou adorando essa adrenalina. Também devo confessar algo para Monica: Por conta da música que escolhi e por causa da data de hoje, acho que este post vai ser perfeito para hoje.

Sem mais delongas, a minha música escolhida para meu post especial sobre o dia dos amigos é “O Poeta Está Vivo”, bela parceria de Dulce Quental e Frejat, feita para homenagear o “brou” Cazuza, que completa hoje 20 anos que foi ao inferno e voltou, e agora descansa nos Jardins do Éden, naquela parte destinada aos poetas, loucos e cantores do porvir...

Creio que antes de dissertar sobre a música supracitada no parágrafo acima, devo explicar minha escolha. Confesso que não conheço música melhor para falar de amigos do que “Canção da América”, de Milton Nascimento, porém, esta foi a música escolhida por Monica, então, antes de enlouquecer, lembrei que este ano se completam 20 anos sem Cazuza, então, resolvi homenagear o melhor amigo que nunca conheci.

Tentarei não ser saudosista em meu post, juro a vocês, mas caso isto aconteça, peço que me perdoem.

Minha “amizade” com Cazuza e sua música, aconteceu numa tarde de um sábado há mais ou menos 8 ou 9 anos atrás, quando eu tinha 12 anos (sim, fatidicamente eu nasci no ano em que Cazuza morreu). Foi no quarto de um primo, que tomei conhecimento da grande obra que Cazuza havia deixado de herança para aqueles que como eu (mesmo sem saber até aquele momento), eram órfãos de pessoas como ele, que tinham atitude e nenhum medo de se mostrar, pois como disse o próprio: “Só quem se mostra se encontra. Por mais que se perca no caminho”.

Minha paixão pela música de Cazuza foi instantânea, e quando eu ouvi: “Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder. Ideologia, eu quero uma pra viver!”. Senti que havia descoberto alguém que tinha feito a trilha sonora para a minha vida, e que esta trilha só estava esperando aquele dia acontecer para que pudéssemos nos encontrar.

Não sei dizer por que as letras de Cazuza são tão significativas pra mim, não sei se é a sua visão “meio dark do amor”, se é o fato de assim como eu, o poeta também era filho único, e sabia que nós, filhos únicos, somos os seres mais altruístas do mundo, vestidos em nossa capa de monstros egoístas e ruins que sofrem, mas fingem não ter pena do papa e seu rebanho por eles serem caretas e covardes e não terem a coragem de ouvir que são capazes de mudar o mundo com seus moinhos de vento.

O poeta continua vivo, impulsionando a grande roda da história com seus moinhos de vento, e sendo meu amigo e conselheiro em todos os meus momentos, ele me salvou da alienação, me deu a coragem de escolher o mundo e não a proteção das paredes da minha casa. Fez-me entender que o amor é o ridículo da vida, e que só quem é Lua e Sol ao meio-dia* está pronto para ele, que viver é bom nas curvas da estrada, porque viver a liberdade, amar de verdade... Só se for a dois.

Baby, continuaremos comprando o jornal e vendo o Sol nascer, apesar de tanta barbaridade, porque Cazuza se foi, mas deixou um legado, ele nos ensinou que a vida é o nosso espetáculo, e que a sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue, pois a vida é bem mais perigosa que a morte, e como dizia o poeta... Morrer não dói.

Valeu, caju!

*Adaptação feita por Monica e eu da frase “nú e só ao meio-dia” que faz parte da letra original

By Eduardo

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/barao-vermelho/44427/

quarta-feira, 30 de junho de 2010

"A Mulher do Viajante no Tempo" (Audrey Niffenegger) + "O Avesso dos Ponteiros" (Ana Carolina) + "Em Algum Lugar do Tempo" (Biquini Cavadão)


“Lar doce lar. Não há lugar como a nossa casa. Take me home, country roads. Lar é onde está o coração. Mas meu coração está aqui. Então devo estar em casa. Clare suspira, vira a cabeça e fica quieta. Ei, querida, cheguei. Cheguei em casa.”


O texto dessa semana era o texto de semana passada, meu post de aniversário, que foi prorrogado para essa semana, enquanto eu viajava no tempo. Isso de “mais um ano de vida”, mil pensamentos vem à tona, lembranças, mistos de passado, presente e futuro, e eu, que quase não viajo na minha imaginação, pensei como virar os ponteiros do avesso, e viajar por algum lugar do tempo. Então, uso de coisas especiais para isso, especiais pra mim, em particular. Essa semana, uso o livro “A Mulher do Viajante no Tempo”, de Audrey Niffenegger e o filme baseado no livro, com título em português de “Te amarei Para Sempre”, relacionando com “O Avesso dos Ponteiros”, de Ana Carolina e “Em Algum Lugar do Tempo”, do Biquíni Cavadão.

Bem, vamos lá, embarcar nessa loucura. Primeiramente, explicações: Sem sombra de dúvidas, esse é o livro da minha vida, e tomou o topo de qualquer outra história de amor, sério. A música ao avesso de Ana, também é uma das mais especiais pra mim, logo, já digo de antemão que me senti lisonjeada por conseguir achar uma ponte entre as histórias. O livro de Audrey, recorde de vendas pelo mundo. O filme, estrelado por Rachel McAdams e Eric Bana, não teria esses protagonistas a princípio. A idéia de torná-lo filme era antiga entre Brad Pitt e Jennifer Aniston, quando ambos eram casados, e eles seriam a Clare e Henry da história. Com o divórcio instituído e os direitos autorais já reservados à eles, ambos ficaram apenas na direção, e Aniston disse que não teria ninguém melhor que McAdams para substituí-la como Clare.

A história gira em torno de Clare, uma garotinha de seis anos, que um dia, brincando perto de sua casa, conhece Henry, um viajante no tempo. Um homem que se sente excluído, o último membro de uma espécie antes numerosa. Um homem que vive de breves eternidades, numa grande variedade de tempos e lugares, revivendo cenas de seu passado, indo para um futuro além do que ele sabe. O futuro, aquela grande caixa de chocolates ainda fechada. O futuro é um lugar aonde eu possa ir? Ele vive se perguntando. O passado, aquela parte inalterável da história do universo, onde ele não pode fazer nada a respeito, pois só existe livre arbítrio quando se está no presente. Mas seja qual for o tempo em que ele esteja, é o presente dele. Ele não deveria ser capaz de decidir?

E nessa tortura de ser deslocado contra sua vontade para o seu “eu” de seis anos e seu “eu” de 40 anos, sem levar nada: noção de tempo, roupas, proteção, ele revive cenas felizes do seu passado e futuro, como também se tortura com as cenas que não são tão felizes assim. “Era uma vez, eu tinha mãe. Tinha pai também, e eles eram muito apaixonados. E eles tinham a mim.”. E isso, ficou em algum baú do passado, que qualquer hora, ele torna a abrir.

E no fim das contas, tudo que Henry quer, é se livrar dessa cronologia invertida, de viver no avesso dos ponteiros. Há alguma forma para ficar no presente, abraçá-lo com todas as células do seu corpo? Parece que o tempo passa muito mais devagar para mim do que para os outros. Hoje é interminável.

E é esse Henry complexo que se apresenta pra uma garotinha de seis anos, que acredita nele, apesar de achar que ele se parece com o gato da Alice. Afinal, gente não aparece e desaparece do jeito que ele faz. Porém, uma sorte grande do futuro dessa menina, fez de alguma forma, com que ele a encontrasse ali no presente. E Henry sempre a avisava quando tornaria a aparecer.

E ela foi crescendo num misto de fascinação e adoração por essa pessoa mágica e misteriosa que apareceu em sua vida e que só ela tinha. E ela começou a perceber, que a maioria das garotas não tinha um Henry. Ou se tinham, nenhuma falava nada. E cada vez que ele ia até ela, era menos uma vez que ele estaria lá. E esse fascínio, com o passar dos anos, foi virando paixão. E Henry não podia lhe dizer que era ela, que lá, no futuro, era a sua esposa. Não para a menina de seis anos. Só lá pra adolescente, de 18, que precisava entender quando realmente o encontrasse no presente, que ele não a reconheceria, pois seria realmente a primeira vez, para o Henry que vive o presente e não sabe do seu próprio futuro, esse viajante do tempo, que sentia uma combinação entre liberdade e desespero.

Então, acontece o encontro. Tão simples, como se andassem fazendo isso a vida inteira [...] Tão simples. Cá estamos nós. Aqui e agora, finalmente agora. E eles se beijam pela primeira vez, um beijo nascido de uma antiga conexão. Apaixonam-se e constroem uma vida juntos, casam-se. Finalmente juntos para qualquer um ver. Agora tudo começa. E ela, que achou que sua espera teria fim quando o encontrasse no presente, percebe que vai passar a vida inteira esperando. Esperando ele voltar de 1989, quando estava com ela aos 18 anos; de 2011, onde passeia com sua filha por um museu.

Por que tudo tem que ser complicado? Já não deixamos para trás a parte complicada?

Para Clare, é difícil ser quem fica. Porque a ausência intensifica o amor? Creio que porque a saudade apaga os deslizes que cometemos e superestima os bons momentos, por serem raros. “Tenho a sensação de que cada minuto de espera é um ano, uma eternidade. Cada minuto é lento e transparente como vidro. A cada minuto que passa, vejo uma fila de infinitos minutos, à espera. Por que ele foi aonde não posso ir atrás?”

Para Henry, “quando estou em outro tempo, me sinto pelo avesso, transformado numa versão desesperada de mim. Viro um ladrão, um andarilho, um bicho que corre e se esconde. Assusto velhas e assombro crianças. Sou um truque, uma ilusão da mais alta ordem. É incrível eu ser mesmo real [...] Odeio estar onde ela não está, quando não está. No entanto, vivo partindo, e ela não pode vir atrás.”

Clare se sente como Penélope, à espera de Ulisses, em Odisséia, tecendo e desmanchando. Como se tivesse sido abandonada por um anjo da guarda. Henry, é mais simplista. Cá estou eu. Inteiro. Agora. Aqui neste chão de cerâmica marrom. Parece que é pedir muito ter continuidade.

Sempre chega a hora da solidão, pra Clare. Ela era uma menina, mas já virou essa página do diário. Diário onde anotava as visitas de seu amor atemporal. Ele só pede que ela não guarde mágoa dele, e que não o esqueça. Mesmo por vezes não merecendo o seu amor. E ele é como as ondas do mar, que sempre vão e vem, os beijos de adeus na estação de trem. Esse gosto de lágrimas no rosto, de quem são essas lágrimas em seu rosto? Ela não nota a lua mudando de formato, e as pessoas passando por ela, pra pegar o metrô. E o diretor, o tempo, segue seu destino de cortar as cenas... E a ausência pode ser presente como um nervo danificado, como um pássaro preto.

Não tenha medo de mim, não importa o que aconteça. Não me tire da sua vida, nem desapareça. “Nunca vou largar você. Ainda que viva me largando”, ela diz. Os carros na minha frente vão indo e eu nunca sei pra onde. Será que é lá que você se esconde? Penso quando você partiu sem olhar pra trás, como um navio que vai ao longe e já nem se lembra do cais. Tudo passa, e eu ainda ando pensando em você, pois em algum lugar do tempo, nós ainda estamos juntos. Pra sempre ficaremos juntos.

Nunca escolhi Henry e ele nunca me escolheu. Então como poderia ser um erro? Mais uma vez encaro o fato de que não podemos saber [...] Parece que o tempo se dobra sobre si mesmo. Vejo que sou feita de camadas representando meus dias passados e futuros. Mas c´est la vie, os tempos mudam, e cá estamos nós.

Então, para eles, só resta contemplar o pequeno instante onde estão juntos. Não é tarde demais, ainda não. Afinal de contas. Então que brindem. À felicidade. Ao aqui e agora. A mundo e tempo suficientes. Como na verdade, todos nós deveríamos fazer. Não somos viajantes no tempo, e não temos um viajante no tempo em nossas vidas, mas essa forma de encarar os fatos, mostrando a efemeridade das coisas, faz realçar seu devido valor, faz intensificar os bons momentos e nos fazer perceber que não podemos perder tempo com inutilidades, porque quando menos se espera, o nosso espelho, ou o nosso mundo, pode viajar para um tempo que não conseguiremos alcançar.

Então, eles absorvem o tempo do mundo. Nada jamais pode ser triste, não se pode perder ninguém, ninguém pode morrer nem estar longe: estamos aqui e agora, e nada pode estragar nossa perfeição nem roubar a alegria deste momento perfeito. Nem tempo nem lugar, nem a sorte nem a morte podem dobrar os mais insignificantes dos meus desejos o mínimo que seja.

Ela sente que pode chegar nele e tocar no tempo. Ele a ama. Como se fosse o brilho de sol vindo de outra galáxia. E ele apenas diz que a ama, sempre. O tempo não é nada.

E não importa o tempo que fiquem juntos. Ainda não é o bastante. Ainda não acabei. Quero estar aqui. É só minha memória que me segura aqui. Tempo, deixe-me desaparecer. Então, o que separamos por nossa própria presença pode ser unido.

E quando ele precisa partir, ela se sente a viajante. E fica em carne viva, não na pele, mas lá dentro onde uma ferida se abre. A dor recuou, mas o que ficou é a sua casca, um espaço vazio onde ela devia estar, mas em vez disso é a expectativa da dor que está lá.

Mas logo ele volta, porque outro mês aponta na folha do calendário. Esperei por você, e agora você está aqui.

É melhor ser extremamente feliz por pouco tempo, mesmo que se perca essa felicidade, do que passar a vida inteira apenas bem?

O tempo faz tudo valer a pena, e nem o erro é desperdício. Tudo cresce. E o início deixa de ser início, e vai chegando ao meio. Aí começo a pensar que nada tem fim...

“O que há mais nesse universo, nesse desenho? Outras estrelas distantes. Cato nas minhas ferramentas e encontro uma agulha. Prendo o desenho numa janela e começo a perfurar o papel todo, e cada furo vira um sol em outro conjunto de mundos. E quanto tenho uma galáxia cheia de estrelas, perfuro a figura, que agora vira constelação para valer, uma rede de minúsculas luzes. Olho para a minha imagem, e ela me olha de volta. Ponho o dedo em sua testa e digo “suma”, mas é ela que vai ficar; sou eu quem está sumindo.”

By Mônica

Links das Letras:

http://www.vagalume.com.br/ana-carolina/o-avesso-dos-ponteiros.html

http://letras.terra.com.br/biquini-cavadao/1021540/

Trailer:

Veja no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=XfYo04GfOL8

"De Quem é o Poder" (Kid Abelha) X "Toda Forma de Poder" (Engenheiros do Hawaii)

Bom... Acho que já se tornou um hábito meu, e não conseguirei mais escrever em outro horário que não seja de madrugada. Acho que é apenas nesse momento que meus devaneios utópicos tomam forma e eu consigo elucidar (ou ao menos tentar) tudo o que penso em um texto.

Inspirada pela Copa do Mundo, Monica pensou em escrever um texto que falasse desse tema como crítica social (afinal, moramos no Brasil e os políticos vêem o futebol como uma espécie de ópio do povo), e eu não consegui pensar em nada para dissertar sobre isso, então, resolvi buscar inspiração em uma idéia que eu tinha guardada, mas nunca tive inspiração (leia-se: coragem) para usá-la.

Minhas escolhidas para esta semana são “De Quem é o Poder?”, letra de Cazuza, que foi composta para dar nome a um álbum do Kid Abelha, e “Toda Forma de Poder”, do sempre complexo Humberto Gessinger, líder dos Engenheiros do Hawaii.

Começando pelo poeta, eu devo avisar que ao contrário das outras músicas do Cazuza, só tive contato com essa a mais ou menos um ano atrás, quando ajudei minha companheira neste blog, a fazer o roteiro musical para sua festa de aniversário que tinha como tema os anos 80. Até pelo fato dessa letra ter sido gravada apenas pelo Kid Abelha, e como meu conhecimento do grupo é meio ralo, acabei que não criando grandes vínculos com a supracitada letra, mesmo se tratando de uma letra politizada, que mostra qual rumo seguiria a obra de Cazuza, se sua vida não fosse ceifada pelo toque do HIV.

O poeta constrói uma letra cheia de indagações que todos nós temos, afinal, de quem é o poder? Uns dizem que é de Deus (religiosos), uns dizem que ele é do povo (ateus), eu sinceramente acho que é dos muito loucos que não tem contas a prestar. O problema é que esses “loucos” que na sua juventude são os meus heróis acabam envelhecendo e me dando nojo seguindo feliz o rebanho, e abaixando a cabeça para os que tem o poder, que ao contrário do que muita gente pensa, não é o presidente, e sim quem vem mais de cima.

No final das contas todos querem poder (podemos testemunhar isso muito bem em um ano de eleição), seja o guarda da esquina, o ativo ou passivo, todos querem poder, nem que seja para poder dar ordem o dia inteiro, mesmo sem nem saber o que diz.

E nessa disputa ferrenha, eu posso até não saber de quem é o poder, mas tenho total certeza de quem não é o poder. Com certeza não é da nossa sociedade alienada que enquanto comemorava um gol do Brasil numa terça-feira normal que mais parecia feriado (me incluo neste grupo), se esquecia que o presidente estava sancionando um aumento de 7,7% para os aposentados. Aumento este que segundo especialista só vai poder ser mantido se também aumentarem os impostos – que já são extremamente altos. Então, você que não sabia que o presidente sancionou esse aumento, se pergunta: “por que o Lula fez essa loucura?”. Eu respondo parafraseando o nosso presidente: “Não podemos esquecer os nossos velhinhos, afinal de contas, eles também votam, né!” (a frase original não possui o que está escrito em negrito).

Mas podem ficar sossegados, nos próximos quatro anos, não vamos mais ter aumentos e esqueceremos novamente a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira, e agora não tem mais direito a nada. Quer dizer... A quase nada, porque de quatro em quatro anos, eles tem um super aumento para não se esquecerem de votar no candidato do governo.

O engraçado é que toda essa luta para se saber de quem é o poder, também é uma forma de morrer por nada. Porque nós meros mortais, nunca saberemos quem é que paga pra gente ficar assim. E enquanto isso Fidel e Pinochet tiram um sarro da gente que não faz nada e a história vai se repetindo, mas a força deixa história mal contada e assim a gente vai levando essa manha.

E como a coisa mais fácil do mundo é ir adiante e esquecer que a coisa toda tá errada, acabamos virando marionetes do sistema e achando normal que um boçal atire bombas na embaixada. Porque no fim das contas toda forma de conduta acaba se transformando numa luta armada.

É muito triste quando olhamos para trás e vemos que nada mudou. Que a sociedade continua muda e seguindo todas as regras impostas por quem está no poder, que só tem o trabalho de ir sempre evoluindo nosso “chip” de inibição que nos faz agir como robôs prestando atenção nos que eles dizem, mas eles não dizem nada... E as verdades da vida continuam sendo ditas apenas na cama.

By Eduardo

Links das letras:

http://letras.terra.com.br/kid-abelha/65851/

http://letras.terra.com.br/engenheiros-do-hawaii/12895/