Aqui estou eu em mais um dia de escrever para o blog, e como tem acontecido nos meus últimos posts (até com mais freqüência do que imaginei), ando meio sem inspiração, e venho escolhendo as músicas praticamente minutos antes de sentar para exercitar minha verve utópica semanal. Mônica diz que meus textos menos planejados são os mais inspirados, mas ela sempre é meio suspeita para falar.
Hoje as músicas escolhidas são “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso (banda que uso bem menos do que gostaria) e “Revanche”, do Lobão (outro que uso bem pouco, mas nesse caso é mais por falta de envolvimento com sua obra). A primeira música foi uma indicação da Mônica, mas sempre foi uma música que pretendi usar, só que nunca encontrava inspiração para me atrever a rabiscar sobre ela, e a outra escolhida, foi uma pérola encontrada em meu museu pessoal de grandes novidades.
Antes de começar a falar sobre as músicas, devo agradecer ao Edílson por conhecer a música do Lobão, pois foi ele que comentou comigo que esta era uma grande letra de compositor muitas vezes subestimado por sua eterna atitude rebelde e sua metralhadora (sem pontaria) cheia de mágoas.
Bom, chega de blá blá blá e vamos às músicas. A primeira a ser discutida será “Alagados”, indiscutivelmente um dos grandes hinos gerados na revolucionária década de 80, berço musical dos dois artistas da semana.
Herbert Vianna criou uma música cheia de suingue e sangue, uma melodia que mistura ritmos e uma letra que expõe o caos que é o nosso país. Porque para muitos o Sol da manhã é apenas mais um desafio a ser vencido nesta eterna batalha diária que travamos para nos tornarmos brasileiros.
Nós levamos a vida na arte e temos a arte de viver na fé, mas em meio as falcatruas que vemos todas as vezes que ligamos a TV, eu pergunto: Fé em que?
Somos todos filhos da mesma agonia, conhecida mundialmente como Brasil, nossa pátria mãe tão distraída que sempre é subtraída por aqueles que são eleitos com a promessa de acabar com as palafitas, trapiches e os farrapos, mas que quando eleitos, nos negam oportunidades e nos mostram a face dura do mal.
Algo que sempre me deixa pensativo é de onde tiramos esperança por um futuro melhor... Porque com certeza essa esperança não vem do mar e nem das antenas das nossas televisões, que ficam em nossas salas que de forma curiosa são a nossa cela, enquanto somos prisioneiros nas grades do vídeo, que é de onde vemos o Sol nascer quadrado, mas não tem problema, afinal de contas, a gente ainda paga por isso.
Meu conhecimento sobre a obra de Lobão é muito pouco, visto que só conheço seus clássicos e não acompanho o que ele produziu nos últimos anos, mas desde que ouvi “Revanche", sempre achei esta uma das letras mais interessantes e fortes produzidas pelo grande lobo.
No meio da correria da grande cidade, o café, um cigarro, um trago não são mais um vício, e sim companheiros da solidão que assombra a todos que fugiram para as megalópoles como bichos do mato atrás do mito de fortuna e riqueza (somos eternos caboclos querendo ser ingleses), e que acabaram se tornando escravos de um novo rito.
Tentamos acertar o passo usando mil artifícios, mas sempre que alguém tenta um salto, é a gente que paga por isso. E paga um preço alto. Paga com falta de infra-estrutura em escolas e hospitais, com saneamento básico precário e muito miséria, até porque, a miséria nunca acaba, porque dá lucro e é um excelente assunto para todos os demagogos que almejam cargos públicos.
A favela é a nova senzala, e a cidade que tem braços abertos num cartão postal, mas os punhos fechados na vida real, não nos oferece nenhuma chance, nem mesmo a chance de uma revanche contra todos que nos condenam a viver como se estivéssemos em Trenchtown* ou na Favela da Maré (e não digo isso para denegrir esses lugares, mas sim, porque esses lugares são apenas dois exemplos de falta de compromisso dos políticos com o povo que os elegeu).
A única esperança que nos resta, é torcer para que o povo cobre sua revanche nas urnas e pare de capturar tudo que é captado pelas antenas de TV e tenha fé em si próprio e não em falsos profetas, que se autodenominam pais e mães do povo.
Quem é que vai pagar por isso?
*http://pt.wikipedia.org/wiki/Trenchtown
¹ Foto da parte de cima do texto é de Trenchtown na Jamaica
² Foto no meio do texto é da Favela da Maré, o verdadeiro cartão de visitas da cidade maravilhosa
By Eduardo
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