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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Todos estão mudos (Pitty) X Todos estão surdos (Roberto Carlos)

Meu post dessa semana, era a idéia que eu tinha pro meu post da semana do Natal, que não chegou a ser feito, como eu disse no meu último post. Quando surgiu a idéia de unir essas duas músicas, pensei em falar do silêncio de um mundo que urge em gritar por socorro, sem forças sequer pra sussurrar por piedade. Então, passou a semana, e as idéias ficaram adormecidas, até que foram acordadas no susto essa semana, com mil pensamentos. Para vomitar essas palavras surdas desprovidas de som, meio mortas, meio cinzas, me utilizo de Pitty e Roberto Carlos em “Todos estão mudos” X “Todos estão surdos”.

Prezando o cavalheirismo já extinto, começo com a Baiana do rock. Ela fala dos gritos suprimidos da nossa sociedade alienada que perdeu a coragem em botar a cara pra bater em algum espaço de tempo tão fullgás, que não nos demos conta desse conformismo que nos dominou e roubou nossa voz. E não só a voz. Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?

Com certeza não foi o peso do silêncio, que mudo, consegue eviscerar nossos pensamentos e paralisar a parte pensante e questionadora que existe em nós. Aquela mesma parte que é capaz de fazer algo pra transformar tudo. Essa parte nos foi ceifada em vida, dilacerando nosso caráter, fazendo sangrar a nossa fé. Nos esmagando por inteiro. Nos fazendo esperar eternamente pela salvação que nunca virá nos acometer em nosso sofá conectado 24 horas aos plim-plims excitantes que nos levam à loucura entre um vilão indo preso em horário nobre, um show de intrigas e traseiros ao sol, e um gol antes da novela da vida real.

Já o rei da geração brilhantina glostora, fala de algo que todos almejamos desde sempre, mas que a humanidade jamais conheceu: paz. Poderosa palavra de três letras, com um significado jamais alcançado por nós, mas que está dentro dos sonhos de todos que tem um pouco de sensatez. Ele diz que todos temos paz dentro de nós, apenas desconhecemos isso. E que poderemos perceber ao fechar os olhos e vermos o que diz nosso coração. Isso me lembra algo que li num livro, dizendo que a paz não é aquilo que vem depois da tempestade. É você estar no meio da tempestade mais turbulenta, e isso não afetar você. E permitir que a paz te persiga por mais que tudo pareça caos e dor, porque na verdade, é assim que tudo é em 99% das vezes, e assim continuará sendo.

Mesmo que a violência acabe, mesmo que a desigualdade se desmanche. Sempre haverá algo que trará o caos, até porque em teoria, o caos é a constante movida pela inconstância que nos rodeia. Voltando à letra, ele diz que o amor é importante e blá, blá, blá. Que não importa os motivos da guerra, a paz é mais importante e mais blá, blá, blá. Estamos cansados de saber disso tudo, mas preferimos ficar perdidos no labirinto dos pensamentos poluídos pela falta de amor. Sabemos que a covardia é surda e só ouve o que convém. E ela não ouve os clamores e as frases de outrora, que trazem os gritos suprimidos dos nossos ideais perdidos em eleições populares.

Como resultado, temos tanta gente sem fé num novo lar (logo, sendo novo ou antigo - penso eu - é indiferente. O problema não está onde se mora, e sim quem mora, o que pensa, no que crê e se alimenta esperanças renovadas quando tudo parece estar se renovando em sua vida – os que deixaram o fracasso lhes subir à cabeça). Mas existe o bom combate, de não desistir sem tentar. É desse que precisamos. É por esse que urgimos. É esse que deve nos perseguir. Com um grito que acorde a humanidade inteira, fazendo os mais surdos escutarem e os mais mudos bradarem. Acho que na verdade, todos não estão surdos, tampouco mudos. Esse título, de certa forma, acaba sendo um desrespeito imperdoável a todos os deficientes que estão muito mais antenados ao som do mundo e as vozes de compaixão.

Se eu pudesse unir as duas letras, em um título, diria que todos estão alienados. De uma forma tão severa e miserável, que parece que uma areia movediça nos faz afundar cada vez mais. E nem com o perigo iminente, temos a nossa covardia partida e voz pra nos fazermos ouvir. Não espere, levante. Sempre vale a pena bradar. É hora, alguém tem que falar. Que sejamos nós, pessoas que se recusam a ter os neurônios em estado de coma induzido. Não forcemos o grito abafado dos que não tem voz. Vamos unir nossas vozes em uma só, porque só assim, não haverá quem não consiga bradar. Martha Medeiros, em um de seus textos, diz mais ou menos assim: O mundo é um imenso playground que cultua deuses errados. Mas se prestarmos atenção nos detalhes, teremos uma visão mais abrangente e alcançaremos a paz.

Que possamos ouvir os gritos abafados. Que possamos falar o que está preso em nós. Porque senão, a tendência acaba sendo que, além de alienados em nosso pequeno universo, nos tornemos cegos ao que está a nossa frente.

By Nine

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Tempo Perdido (Legião Urbana) X Tempos Modernos (Lulu Santos)

O post dessa semana foi como um repente, após uma gestação prolongada. E pari-lo, foi infinitamente difícil para mim. Após três semanas sem escrever aqui, pela correria das festas de final de ano, fiquei frustrada. Afinal, passei um bom tempo planejando os 2 últimos posts do ano – o da semana do natal e do reveillón – e eles não chegaram a nascer. Não dei adeus ao ano que findou como eu queria – e deveria, diga-se de passagem. Então, como já não tinha mesmo realizado os posts para fechar o ano com letras de ouro, falando de todo o sentimentalismo do espírito natalino e da renovação das esperanças com a chegada de um ano novo ainda bebê, estou eu aqui, na primeira semana do ano.

No primeiro post desse ano redondo, que traz com ele, um turbilhão de sonhos recém saídos do forno, vou pra minha idéia...De primeiro post do ano. E de onde surgiu essa idéia? Bem...confesso não ter sido muito criativa, visto que todo mundo que reflete sobre essa época, escrevendo, cantando ou guardando para si suas impressões ou expectativas, tem em mente um novo começo de era. Tempos novos chegando, sejam eles modernos, ou que se percam no final. Me usarei de Legião Urbana e Lulu Santos, para abrir o ano com Tempo Perdido X Tempos Modernos.

Engraçado, que tinha planejado que o primeiro post de início do ano seria um prospectivo - do ano que está chegando. Quase sem querer, foi isso que aconteceu, pois acabei de tirar meus neurônios da paralisia das boas festas.

Nada melhor pra abrir o ano...Eu adoro legião urbana, mas isso todos devem saber, a essa altura do campeonato. Pelo menos os leitores assíduos ou ocasionais. O jeito revolucionário de Renato fica estampado nessa letra, onde ele diz que acorda todos os dias com a sensação de não ter mais o tempo que passou, como se as lembranças fossem inexistentes. Mas diz que ainda tem muito tempo, tem todo o tempo do mundo, por ser jovem. Em outro momento, ele diz que não tem tempo a perder. E ele fala isso ao falar do suor sagrado de todos aqueles que se matam de trabalhar enquanto vêem suas próprias vidas passando pela janela e dando tchau. Mas reforça que isso ainda é mais bonito que o sangue selvagem dos burladores da lei.

É uma visão em preto-e-branco de alguém que esquece o que acontece nos seus dias que se seguem arrastados, devido a ter a sensação de estar perdendo tempo – e vida – trabalhando (honestamente a vida inteira, e agora não tendo mais direito a nada), não vendo a cor dos dias que se seguem, e perdendo a esperança da sua juventude, que está ficando marcada em máquinas, não em sorrisos e lembranças guardadas com afeto. Como resultado, percebe-se medos não assumidos e a carência de presenças reais para coisas simples, como um abraço, uma luz acesa, uma promessa verdadeiramente cumprida. Tempo ganhado, manhãs brilhantes, a juventude de volta. E ter o seu próprio tempo. E o controle sobre o rumo da sua própria vida.

É nessa melancolia de esperanças partidas como o final de um ano exaustivo, que Renato carrega sua letra de melodia que começa com inesquecível solo de guitarra. Mais esperançoso, Lulu crê num futuro com dias melhores, não porque tudo está correndo limpo e claro como numa bossa nova que fala de alegria, mas porque, sua visão além do alcance, transcende os muros de hipocrisia que insistem em nos rodear, sufocar e tragar a nossa alma para o mundo de aparências que leva ao sucesso e à solidão.

Ele consegue enxergar uma vida mais repleta de prazeres e sensações, que outrora Renato desconhecia, por viver imerso em obrigações que o cegavam para o sentido e a beleza do resto. Ele fala de amor. Amor sincero, pra todos nós. Amor real, não só o platônico. Não só o virtual. Não só o inatingível de novelas de horário nobre e filmes estrelados por celebridades Hollywodianas que escondem suas vidas frustrantes em longas-metragens com trilhas de chorar de emoção. A emoção da platéia, gente simples, mas feliz. Não aquela mesma encenada para receber o Oscar.

É essa platéia que vai fazer um novo começo de era, pois é gente fina, elegante e sincera. Não estou dizendo que o povão está repleto de gente honesta, não sou a hipócrita do começo da letra. Até porque ser gente fina ou gente grosseira, independe de classe social, raça e religião. Mas bem verdade, é que todo mundo deveria ser gente fina. Como diz minha queridíssima colunista do Globo, Martha Medeiros, “Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar. Gente fina não julga ninguém – tem opinião, apenas. Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.”

E toda essa volta, pra dizer que eu vejo (e quero) um novo começo de era, porque cansei de ter tempo perdido. Quero ganhar mais. Não só na megasena da virada. Não só dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Quero ganhar sorrisos, abraços, tempo para estar ao lado de quem eu amo. Não só um bom emprego que me mantenha estável e me garanta uma boa aposentadoria, mas fé para não desistir, acreditando que o mundo pode ser melhor e que eu não vou deixar de fazer a minha parte, mesmo que remando contra a maré.

Como será o amanhã? Eu sou péssima de previsões, e aprendi a me libertar delas, vivendo esse segundo que me permite respirar e torcendo para que o novo seja melhor ainda. Sem esperar, mas recebendo de bom tom. O ano acabou de nascer, não tenho mais o tempo que passou, mas temos muito tempo. Temos todo o tempo do mundo? Acredito que sim, pois somos jovens, e apesar do sinal estar fechado pra nós, temos nosso próprio tempo. Mas hoje, o tempo voa, amor. Escorre pelas mãos. Mesmo sem se sentir. E não há tempo que volte, amor. Vamos viver tudo o que há pra viver. Vamos nos permitir. E só por hoje, eu vou me permitir ser feliz. É esse meu lema para esse novo começo de era, porque o tempo não vai mais escorrer pelos meus dedos. Sou eu quem vou dançar sob suas horas, a trilha sonora da minha vida. Vem comigo? Feliz vida a todos nós.

By Nine

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

De você (Pitty) X Minha Alma (O Rappa)

O post dessa semana, surgiu de uma idéia antiga, que estava guardada no meu baú musical. Eu abri o baú, e comecei a ver o que tinha na minha prateleira de idéias, que me agradasse pra essa semana. Daí tão previsível quanto areia no deserto, me veio o rock. Meus escolhidos dessa semana falam por mim sobre como vivemos presos em nossos mundos devido à forma como a sociedade trata as pessoas: para os criminosos ficarem soltos, os inocentes se enclausuram em suas tocas em busca de um pouco de paz. É o velho ditado, aquele que os ratos só fazem a festa quando os gatos estão presos. Não tive dúvidas quanto a minha escolha, e estou gestando um duelo de rock, entre a galera de O Rappa e novamente ela, Pitty. Uso e abuso de “Minha alma” pra falar “De você”.

Quando tive o estalo de unir essas duas músicas num post, tive essa intenção por ver que tinham algo de parecidas, porém só hoje ao ouvi-las e ler suas letras com calma, percebi a afinidade entre ambas, com idéias que se completam tanto quanto feijão com arroz.

Começo por ela, porque suas letras de protótipo perfeito me fascinam e inquietam. E essa música, para os que não sabem, tem na autoria: Pitty, Duda, Joe e Martin – Ela e sua banda. Ela fala das grades do portão, que supostamente deveriam nos trazer segurança, mas que não nos protegem de nós mesmos. Quando o rancor não nos permite o perdão, quando o poder nos sobe a cabeça, nos tornamos prisioneiros daquilo que é material, e que um dia vai apodrecer e nos levar junto ralo abaixo.

Peço licença para citar Frejat, em uma música que ele fez baseada em um texto de Victor Hugo, que diz “Desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga à ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem.” Enquanto não mostrarmos pras nossas posses que nós somos os donos delas, e deixarmos que elas governem nossa vida e nos permitam ver apenas entre as grades, estaremos na dúvida sobre quem é que está na prisão. E é isso que os meninos do Rappa esbravejam ao falar que suas almas estão armadas. E às vezes atiram em si próprias, quando não percebem que nenhum muro vai te guardar de você. Paz sem voz, não é paz, é medo. E o medo escorre entre os meus dedos.

Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz? Se essa paz vem do vidro fechado e da grade do portão, suposta segurança, mas que não dão proteção, ela é muda. O silêncio não traz felicidade, traz solidão. E não é esse tipo de paz que nós queremos dentro dos nossos corações.

Nessa sociedade em putrefação em que tentamos sobreviver, nessas épocas onde os sorrisos estão enferrujados, e os corações foram substituídos por chips piratas desbloqueados, que aceitam qualquer operadora em planos de minutos gratuitos, temos que ficar enclausurados em condomínios com grades pra trazer proteção, e percebemos que talvez nós é que estejamos nessa prisão que se chama “viver”, no mundo da geração Aids, drogas e falta de amor. Só que viver com medo de dar o próximo passo e levar uma bala perdida, nos faz refém do egoísmo e não há como tentar extrair o altruísmo dos corações de gelo, com colete a prova de balas e demonstrações de afeto. Vivemos imersos em nossa solidão povoada, sem ninguém que compreenda nosso pequeno e insignificante mundo, tendo como conseqüência horas e horas de bate papo com o espelho, sem obter resposta.

Se as pessoas não conseguem entender a si próprias, não se permitem perdoar e enxergar algo bom dentro de si mesmas, como podemos esperar que tenham uma preocupação com algo fora do seu Eu? É fácil dar defeito em protótipos imperfeitos, é fácil se arrepender ao perceber que a vida podia ser algo diferente. Seria diferente se não colocássemos muros com a tentativa de proteção de nós mesmos, se não precisássemos de novas drogas de aluguel.

De certa forma, o medo embutido na paz abafada ainda é um bom sinal, pois só tememos por nós mesmos ou por aqueles que amamos. Então, me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo! Mas não me deixe sentar na poltrona num dia de domingo. Nesse mundo de caos e solidão, embarque em loucuras comigo e me traga amor, mas me livre do tédio dos conformados. E quando você aprende a amar, você abre os braços e se sente livre. E é com a mão aberta que se tem cada vez mais. A usura que te move só vai te puxar pra trás. E certas vezes, é difícil resistir. É pela paz que eu não quero seguir admitindo...

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Brasil Corrupção (Ana Carolina) X Zé Ninguém (Biquini Cavadão)

O post dessa semana foi uma idéia que nasceu como fruto da minha indignação pela escória que tem algo ostentador chamado poder, algo corrompido chamado caráter e algo sagrado, porém, que foi molestado: a confiança de toda uma nação. Nesse modismo que o governo brasileiro se encontra, de inovar nas formas de corrupção, recorri à Ana Carolina em uma de suas parcerias com Tom Zé e ao grupo da minha Bèlle Époque, Biquíni Cavadão. Sendo assim, trago “Brasil Corrupção” e “Zé Ninguém” para esbravejar na arena dos donos do poder.

A galera do Biquíni traz a tona uma série de perguntas que nos faz refletir sobre o rumo que as coisas estão tomando. Vejam, essa letra foi escrita em torno de 20 anos atrás, e as coisas já estavam nesse patamar de gravidade. Ana, em contrapartida, traz uma realidade mais atual, e conseqüentemente, fétida e indigesta. Onde sequer existe a camuflagem da violação dos deveres políticos para com a sociedade. Camuflar pra que, se todo mundo rouba aqui desde o primeiro português que aqui pisou, de pé sujo e sem pedir licença pra entrar na casa alheia e tirar tudo do lugar?

Quem foi que disse que Deus é brasileiro, que existe ordem e progresso, enquanto a zona corre solta no congresso? Nesse país de manda-chuvas, tem sempre alguém se dando bem, de São Paulo a Belém. Seja o político que rouba dinheiro público com falso pretexto de caridade natalina (como se a população precisasse de Panettones, ao invés de comida, empregos, saúde, infra-estrutura de moradia – coisas supérfluas quando comparadas a um bolo de frutas do feriado sagrado vendido ao capitalismo), seja o financiador da pirataria, o furador de filas, o cambista vendendo ingressos pro show...Ou mesmo, o individuo que avança o sinal e anda sem cinto de segurança após tomar uma ou duas geladas enquanto critica os governantes que burlam as regras.

Quem foi que disse que a justiça tarda, mas não falha? Quem foi que disse que os homens nascem iguais? Eu não sou ministro, eu não sou magnata. Aqui embaixo, as leis são diferentes. A justiça não falha (nem tarda) para os ladrões de galinhas, mas não precisa funcionar para os estelionatários. Os homens nascem iguais para pagar impostos, e diferentes para receber benefícios. Aqui a lei é assim: quanto mais se tem, mais se ganha. Quanto menos se tem...Quem se importa com o que você precisa? Dois pesos, duas medidas. É assim que se equilibra a justa balança do mundo...

Os dias passam lentos, aos meses seguem os aumentos. Dos preços, da inflação. Da violência. Do desemprego. Dos golpes e falcatruas. Dos mortos na porta dos hospitais sem atendimento. Dos casos de gripe suína e de dengue. Dos desabrigados pelas enchentes. De balas perdidas (ou achadas). De impeachements. Pra responder essa sujeira, cada dia eu levo um tiro que sai pela culatra. Se tudo aqui acaba em samba, no país da corda bamba, querem me derrubar! Nessa Terra de Marlboro, derrubam-se os Zés que querem ser “Alguém” na mesma proporção que se sobe a inflação. A verdade, é que em terra de cego, quem tem um olho é rei, mas em terra de ladrão, quem é honesto, vai preso. É otário. E ainda por cima, visto como ladrão do mesmo jeito. Não importa, prefiro seguir acreditando que é melhor ser honesto e justo.

Vivendo nesse puto saco de mau cheiro, onde as senhoras de pouca renda vão rezando pela (in)justiça da Bahia ao Espírito Santo, não há santo que resista. Quem dirá, espírito. Quem foi que disse que a vida começa aos quarenta? A minha acabou faz tempo, agora entendo por que...eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém. E não tenho nada na cabeça, a não ser o céu. E os meus sonhos que alimentam a esperança de um futuro diferente do passado, por vezes sai pela culatra como os tiros de outrora.

Os dias sempre passam lentos para aqueles que desejam fazer as coisas de uma forma diferente.Quando se fala de corrupção, muitos preferem omitir suas opiniões a fixar idéias que poderiam ser contraditas caso estes pudessem ter a oportunidade de saborear o poder.

Quem foi que disse que os homens não podem chorar?Cada homem é sozinho a casa da humanidade. Se cada um de nós formar dentro de si um templo onde amar não é sofrer e onde as leis são iguais, sendo magnata ou Zé Ninguém, iremos perceber que os milhões de Zé “Alguéns” espalhados por aí, podem fazer a diferença. Finalizo parafraseando Ana, quando ela diz: Minha esperança é IMORTAL! Ouviram? Imortal. Sei que não dá pra mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar pra mudar o final...

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cazuza: Solidão? Que nada, Só se for a Dois

Sabe aquela história de velhos fantasmas que voltam para nos assombrar? Eu não acreditava nisso, mas ele bateu à minha porta, e tive que deixá-lo entrar. Não podemos deixar de encarar os fantasmas que nos perseguem e aproveitar a chance de mostrar que não nos assustam mais. E foi assim,que agora discurso sobre ela. A temida pela maioria, a escolhida pelos ímpares: Solidão.

Ironicamente, a pessoa que vai me ajudar a falar sobre o tema, não era nada sozinha. Acho que Renato Russo poderia definir melhor do que ele o que é solidão, pois era nesse abismo profundo que se encontrava a maior parte do tempo, o que é notável em suas letras. Mas enfim. Vamos ao que interessa, Caju? Solidão?Que nada, só se for a dois...

“Solidão que nada”, trata de encontros casuais. Não me digam o contrário, é disso que se trata. Cada aeroporto é um nome num papel. Um novo rosto...Um estranho que me quer. Por mar, por terra ou via Embratel. Mas não há promessas, não, é só um novo lugar. Ao falar das curvas da estrada, de relações com partida e chegada coincidindo na estaca zero, e um véu que encobre seu verdadeiro eu, ele retrata que só fica sozinho quem quer, pois em cada lugar podemos encontrar o "conforto" (momentâneo) pra nossa solidão.

Será esse preenchimento do vazio o determinador do fim da nossa solidão? Talvez pra geração “Já sei namorar” e suas vidas vazias, sim. Geração essa que cultiva uma solidão ocupada. A pior de todas. Onde você se encontra entre um milhão de pessoas e se sente tão sozinho quanto um monge ermitão isolado em uma cabana no alto de uma montanha inabitada no Tibet. Nesse caso, gritar não adianta, ninguém irá ouvir. Eu uso o velho e bom ditado do “antes só do que mal acompanhado”. Pior coisa que existe é alguém lhe roubar a solidão, sem em troca lhe oferecer verdadeiramente companhia, já dizia Nieschtze.

O compromisso virou algo clichê, algo banal. Dispensável. Algo que nos prende a uma rotina nada entusiasmante. É aquilo que não nos permite contar vantagem dos nossos escores de uma noite arrasadora. É o que frustra nossos desejos de fazer sempre o que quisermos, com quem quisermos e onde quisermos. Como se as realizações pessoais dos nossos desejos pequenos e fúteis fosse mais importante que a incrível aventura de compartilhar seu mundo com alguém. E conhecer um universo que você nem sabia que existia e sempre fez parte de você.

E isso abrange a todas as relações que podemos ter. Não é necessariamente restrito aos relacionamentos amorosos, como pode pensar a maioria.

“Só se for a dois” mostra os absurdos que nos cercam e enxergamos com olhos de naturalidade. A ironia já começa quando se fala dos brancos da África do Sul e se completa ao mostrar os filhos de Ghandi morrendo de fome. Mas o que mais mexeu comigo foi os filhos de Cristo estarem cada vez mais ricos. Que religião é essa que as pessoas pregam e dizem praticar, que os torna mais egoístas, individualistas e mecânicas? Creio não ser a que Cristo pregava ao falar de altruísmo, caridade e amor. Valores esquecidos com o advento da famosa distanciadora – A internet. Eu sou legal, até te adiciono no orkut. Mas não preciso te ver, não quero saber dos seus problemas. Mas me deixe ver seus álbuns e suas comunidades pra rir um pouco. A ironia persiste quando ele diz que o mundo é azul. Mas ele era visionário, talvez. O orkut é o mundo azul da internet. Mas de azul, o mundo não tem nada. Ele está mais pra cinza tendendo ao enferrujado.

Qual é a cor do amor? Vermelho, eu diria. Intenso e eterno. Mas isso é opinião minha - reles sonhadora com uma casa de veraneio no país das maravilhas. Se as possibilidades de felicidade são egoístas, o mundo não é azul, e tampouco o amor é vermelho. Talvez tenha sido um dia...Onde não se escondia a cor das flores pra se mostrar a dor. Mas o soldado beija sua namorada, não importa pra que batalha vá. No fim das contas, só quem luta, valoriza e vê o amor como uma benção, e não como uma banalidade ridícula e ultrapassada, que não se usa mais nos dias de hoje, porque mostra o nosso lado frágil, fácil alvo de ataques, expõe toda a nossa vulnerabilidade.

Afinal, amar ao próximo é tão démodé...mas eu estou cheia de me sentir vazia. E digam o que disserem, o mal do século é a solidão. Diferente da fome, da sede e da doença, que fazemos de tudo para combater, a solidão pode ser semeada, como forma de renúncia ou conformismo. Ou inadequação a aceitar um universo diferente do seu. Mas é esse encontro de vidas que nos move. Nossa vida na terra está presa a outras pessoas. O que não podemos, é nos deixar afogar num mar de rostos sem conseguir encontrar um olhar. Drummond diz que na vida, a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Eu peço licença poética a ele pra dizer que o exílio pode ser inevitável (e até produtivo). Mas a solidão, essa sim é opcional.

Agora parafraseando Ana Carolina, ficar sozinho é pra quem tem coragem. E eu vou ler meu livro “Cem anos de solidão”... De toda forma, não curto esse lance de ficar só. Só se for a dois. Mas me sinto só. Me sinto só. Me sinto tão seu...

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ouvir estrelas (Kid Abelha) X Tempo, Espaço (Lulu Santos)


O post dessa semana tropeçou na correria da minha vida, e foi arrastado o máximo que pôde. Aí, cansei. E resolvi dar uma pausa para sonhar. Viajei bem fundo. Peguei um trem pras estrelas e quando me dei conta, estava entre elas.

Eu, que sempre admirei o céu, hoje tenho a honra de falar sobre ele da forma mais poética que existe em mim: através da música. Para tal peripécia, me utilizo de um grande nome: Olavo Bilac. E uma poesia de sua autoria “Ora(direis) ouvir estrelas”. Não, não falarei de poesia. Em partes. Kid abelha, usando a voz de Paula Toller, fizeram o favor de gravar a versão musicada dessa poesia. E é “Ouvir estrelas”, a letra que vou entrelaçar com uma pequena notável (como toda estrela digna) de Lulu Santos: “Tempo, espaço”.

Estrelas são pontos luminosos no céu, produtos de uma enorme explosão – explosão essa que determinou a morte da estrela – cujo brilho é chegado para nós, até que toda a luminosidade da sua morte cesse e ela fique esquecida no infinito escuro. Isso era o que eu sabia sobre as estrelas - até hoje. Eu, que sempre as amei, não sabia nada sobre elas.

Não quero dar uma aula de astrofísica para falar da composição estelar. Mas algumas coisas me soaram interessantes. A estrela só morre quando elementos extremamente pesados a saturam e há um desequilíbrio de energia. E elas não têm todas, o mesmo fim. Algumas viram buracos-negros. Outras, explodem e se transformam em supernovas. Estas são brilhantes ao extremo, e o brilho decai até se tornar invisível. Porém, nos primeiros dias, esse brilho se intensifica em um bilhão de vezes seu estado original, ficando tão brilhante quanto uma galáxia. Elas têm todos os elementos de uma tabela periódica, fato que as permite causar a extinção de todos os seres da Terra, mas também, gerar vida.

Acabado meu momento globo ciência, falo de música e poesia. Mas é que fiquei mesmo emocionada com o fato de algo que pode acabar com todas as espécies vivas do planeta, ter o poder de gerar vida. A ambivalência me fascina. Não gosto de opiniões fixas e imutáveis. Adoro a leveza e a descontração da inconstância, que liberta a vida do tédio. Que permite ousadia aos corajosos. Ou aos indecisos, que seja. Não importa. O importante é não ser apenas o lado A do disco. Se não houvesse o lado B, o lado A não precisaria ser chamado assim, só haveria um lado. Unilateralismo é muita falta de opção. De criatividade. Ou de opinião.

Tudo bem, prometo não me perder mais. É porque ouvir estrelas me faz perder o senso. Eu desperto pra tanta luz, e abro as janelas para olhar o céu, procurando-as no deserto infinito, pálida de espanto. Que o sol me desculpe – e eu o amo demasiadamente – mas anseio avidamente pela noite, onde tudo fica escuro e eu enxergo melhor. E vejo brilhar. As estrelas, quase todas mortas. Só amando para entendê-las. Entender que conseguem brilhar pelo seu fim, com a despedida mais triunfal que o universo nos proporciona.

Afinal...não conheço mais nada que ao perder a vida, deixe um brilho tão grande, que não é chegado para nós o tempo em que se apagarão. E quando isso acontecer, ficaremos apenas com um rastro de luz se apagando além dos nossos olhos. A gente tá na lanterna, do tempo que virá...com mais brilho, espero. Que os novos tempos e novas eras que se aproximam, nos mostrem a beleza de morrer sem desaparecer, de brilhar pra se fazer eterno, de compreender que o importante não é o tempo que se tem, mas o (bom) uso que fazemos dele. E já dizia Cazuza: “Como as borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não dói.” Deixa marcas. Eterniza. E se o seu brilho é tão grande quanto de uma estrela, talvez nunca se apague e nunca se torne invisível. Eu sou sensível à escutá-las a cantar. Pois só quem ama pode ouvir estrelas...

By Nine

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Papa é Pop (Engenheiros do Hawaii) X Fátima (Capital Inicial)

O post dessa semana foi uma idéia que tive de relance, nas manhãs aguadas de madrugar para a árdua tarefa chamada trabalho. Ouvindo música e vendo o sol nascer, relembrei uma conversa com uma amiga e a idéia nasceu naturalmente, sem distócias, nem sofrimento: Engenheiros do Hawaii e Capital Inicial se completam em “O papa é pop” e “Fátima”.

Até aí, tudo bem. Surgiu a idéia, e esta permaneceu congelada até vir a pôr em prática hoje. Daí na minha inocência, pensei: vou ler um pouco sobre o assunto pra aprofundar minhas bases e dissertar melhor. Como fui tola. Bobinha. Agora, me encontro entre uma infinitude de questionamentos desprovidos de solução e não sei qual o melhor caminho pelo qual vou enveredar minhas certezas. Que já estão incertas, a essa altura do campeonato.

Gessinger fala de um Papa pop que levou um tiro à queima roupa. Isso soa familiar? Onde já ouvi isso antes? Renato russo, que compôs a letra que posteriormente o Capital gravou, era um visionário. Sempre acreditei nisso. Ele fala de Fátima. Mas não uma Fátima qualquer. Aquela dos três segredos. Do mistério que a humanidade acha que foi desvendado, mas ainda há muito o que entrelaçar para compreender o verdadeiro sentido das coisas. Enfim, eu falava que Renato falava de Fátima. E um dos segredos (que não estou mais certa se o segundo ou terceiro) dela, envolvia um líder religioso sofrendo um atentado, como o que o Papa João Paulo II (o mais pop de todos), sofreu em 1981 ao levar um tiro (à queima roupa – o pop não poupa ninguém).

Socorro! Não sei se falo das músicas ou dos segredos. Enfim, vamos por partes. Pelo que eu havia lido sobre o assunto, tudo indicava que o terceiro segredo envolvia o tal atentado, que tudo leva a crer que foi o sofrido por João Paulo II. Porém, contudo, todavia...há ressalvas, meus caros. Há quem diga que esse é o segundo segredo. E o terceiro, bem mais catastrófico e em larga escala, prevê uma seqüência de acontecimentos – naturais e provocados por nós, humanos – que teriam como conseqüência a exterminação quase que absoluta da população terrestre daqui há pouco tempo. (não venho a citar datas, nem defender o tal juízo final que a Igreja católica alerta, mas não faz mal a ninguém viver com intensidade e paixão. Na pior das hipóteses, teremos muitas experiências para contar aos nossos netos nas tardes de domingo)

Voltando ao foco principal, Gessinger fala que todo mundo ta revendo o que nunca foi visto, relendo o que nunca foi lido, comprando os mais vendidos, para não escapar das tendências da moda. Qualquer nota, qualquer notícia, uma nota preta, estando na cara ou na capa da revista. Não importa se sua vida são páginas em branco, qualquer coisa que se mova é um alvo, e ninguém está a salvo. Não adianta esperar intervenção divina...não é, Renato? O tempo agora está contra vocês. E no meio de tanto medo, é fácil se perder, como conseguir dinheiro pra comprar sem se vender? Espero que a fé não esteja à venda também. O papa é pop, mas pera lá. É pecado vender um pedaço do céu. E a Igreja não seria capaz de tais atrocidades (isso é uma ironia, para os desavisados. Sem desrespeitar a fé de ninguém, que fique claro. Não falo da fé, falo do sistema que a controla e impõe regras pra chegar ao céu ou ficar perdido no inferno). Mas toda catedral é populista, é pop, é macumba pra turista.

Vem as ameaças de ataque nuclear, e bombas que não foi Deus quem fez. Se armar esquemas ilusórios, fingindo que o mundo ninguém fez, terei pena de vocês. Tudo tem começo. Mas se começa, um dia acaba. Alguém um dia vai se vingar, mostrando a vocês que o reinado acabou e que não passam de escória. Tanto faz, já que existem crianças sem dinheiro e sem moral, e elas não ouviram a voz. Tiveram apenas a visão do que dizia Fátima. Porque ela derrubava uma lágrima.

Um disparo, um estouro. Ninguém está a salvo, e o papa popular levou um tiro à queima roupa. E o vinho virou água, a ferida não cicatrizou. O limpo se sujou, e no terceiro dia, ninguém ressuscitou. Milagres deixaram de existir diante de certas barbaridades. Antigamente era pop. A tua vida era pop. Até o indigente é pop. E o presidente é pop. Mas sobrou pro papa. Ele não desvia dinheiro público, não passa por um impeachment, mas ele ganha um tiro. O presidente não era nem tão popular assim.

Quando se arma esquemas ilusórios e se consegue dinheiro pra comprar se vendendo, você deixa de ser alvo. Não quero ser como vocês, eu não preciso mais. Quando a realidade passa a ser uma peça ao avesso,onde todo tipo de falcatrua recebe perdão e vira crime ser um líder sem tirania, não há intervenção divina que dê jeito. Esqueceram de avisar pra todo mundo que tentaram dar ao Papa o mesmo fim do líder do rock. Não me interessa mais as ameaças de ataque nuclear, as previsões do que está porvir. Acredito na catástrofe que nós mesmos causamos em nossas vidas. Porque tudo que tem começo, um dia acaba. E alguém um dia vai se vingar. Eu já sei o que tenho que saber, e agora, tanto faz. O fim do nosso mundo, é a gente que faz.

By Nine

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