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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Alice no País das Maravilhas (Não me Escreva Aquela Carta de Amor)


O post dessa semana, talvez seja o mais esperado pra mim, desde o início do blog. Isso, por si só, já demonstra o peso da responsabilidade, pelo grau de importância pra mim. Tudo isso por falar de um tempo que me causa admiração e deslumbramento, desde as minhas lembranças mais precoces da infância, com o desenho preferido, no qual eu gostaria de mergulhar e viver a história num mundo real. Então, resolvi lançar um desafio a mim mesma, em torno de tudo isso: Juntar várias idéias numa coisa só, fazendo comparações e descobrindo se existe algo que une tudo isso. A idéia principal? Alice no País das Maravilhas, desenho da Disney baseado na obra literária de Lewis Carroll, que agora virou filme, com Tim Burton por trás das lentes. Então, esse post se dedica à Alice, de todas as formas Possíveis. Alice, de Lewis Carroll, onde tudo começou. Alice, o desenho, que me fascinou na infância, Alice no filme, que me fascinou como adulta. E como não poderia faltar, Alice na música, em composição de Paula Toller e Leoni, com o nome “Alice (Não me escreva Aquela carta de amor)”.

Como começar? Talvez pelo princípio, que é o mais lógico. Ou pelo fim, visto que quando se trata de uma história sem pé nem cabeça, por onde se começa não importa, o que importa mesmo é onde se pretende chegar. Mas se não se sabe aonde ir, não importa que caminho tomar, já dizia o gato sorridente.

Antes de tudo, preciso dar algumas explicações, para que todos entendam as linhas que estão por vir. Comecei a fazer buscas na internet sobre o tema, e coisas marcantes do tema, que acabam invadindo o imaginário de muita gente. Exemplo: Gal Costa tem um CD lançando em 1993 que se chama “O Sorriso do Gato de Alice”, sabe-se lá porque. Com esse mesmo nome, encontrei um blog, com certeza de algum fã inveterado da menininha deslumbrada com um mundo que não existe, a não ser em seus sonhos, “nesse mundo só meu...”, como ela mesma canta.

Achei outro blog, de nome “Siga o Coelho branco”, nome este que seria dado ao CD mais recente de Pitty, mas foi mudado para Chiaroscuro. Porém, a idéia do coelho apressado não sumiu por completo, ao dizer “O Coelho dizendo ´Já é tarde´”, em “Rato da roda”, faixa do CD de Pitty. Ainda em minhas buscas, encontrei o blog de Zeca Camargo, que faz uma crítica sobre o livro e o filme, em minha opinião, fabulosas, de fazer viajar na história, para quem a conhece de cabo a rabo como eu, e de fazer querer entrar nela, em quem ainda está descobrindo. Ah! Acrescento que li o livro todo de uma vez só, poucas horas antes de estar aqui escrevendo, para poder fazer algo mais completo sobre Alice. Não seria justo querer falar sobre ela sem saber como foi que ela nasceu de verdade.

A Alice do livro, que se transformou em desenho, é uma menininha que viaja a um mundo que seria do jeito que ela deseja, onde as flores falam, coelhos vestem coletes e podemos pintar rosas brancas de carmim, para que a rainha de copas não nos corte a cabeça. Mas vai muito além disso, e a história engloba muitos personagens que passam por Alice, cada um com suas particularidades, que a marcam de alguma forma.

Tem a tartaruga falsa, que não aparece no desenho, e mostra um animalzinho infeliz, contando de como era legal quando ia pra escola no fundo do mar, estudar Educação Química, Algas práticas de desenho e Chuvória antiga e moderna, bem como o professor de línguas, que ensina bolo inglês e pão francês muito bem.

Tem os gêmeos, Tweedledee e Tweedledum, que no desenho são como num musical, contando histórias através de canções, e que no filme de Burton, a confundem, apontando diferentes horizontes para Alice, que no filme se apresenta quase adulta, mas não menos sonhadora que a do conto de Carroll.

No filme, ela é uma jovem que foge de um casamento, correndo atrás de um coelho branco, entrando em sua toca. Semelhança com o desenho, porém a Alice do filme, teve o mesmo sonho várias vezes, desde a infância. Sempre com esse mundo de maravilhas, que agora ela mergulhou ao entrar na toca do coelho. Enquanto a pequena Alice do livro acha que tudo é real, apesar de ser apenas um sonho, a Alice do filme acha que tudo é um sonho, quando na verdade é tudo real. São dois momentos da mesma pessoa, onde a infância mostra a fantasia, e a visão emocional de um mundo, que a Alice maior torna racional, achando ser fruto de sua imaginação, pensando que a qualquer momento acordará. Mas ela tem a consciência de que está cada vez mais curiosa, e apesar de tudo, segue sua jornada por esse País das Maravilhas com ares de Terra do Nunca, atrás de um coelho apressado, que sua curiosidade anseia em saber o motivo de tanta pressa para um simples coelho, afinal, ela nunca tinha visto um coelho de colete e de relógio.

A curiosidade vence a prudência, pois mesmo tentando dar bons conselhos a si mesma, como ela mesma diz no conto infantil, ela segue os avisos de “beba-me” e “coma-me” que encontra pelo caminho, aumentando e diminuindo de tamanho diversas vezes. E aquela história do cogumelo, que leva a muitos a fazerem apologia à drogas, é tudo idéia da lagarta. Sempre soube que ouvir uma largarta não era lá boa coisa a se fazer, ainda mais quando ela não responde perguntas, e a cada cinco segundos pergunta “Quem é você?”.

A lagarta do filme tem um tantinho de humor ao chamar Alice toda hora de “Menina burra”, pois ela não consegue saber quem ela mesma é, devido a tantas mudanças que já sofreu desde que chegou nesse mundo louco.

Outro ponto marcante da história é a visita de Alice ao Chapeleiro Maluco, que no conto de Carroll se passa como uma visita para um chá de desaniversário, mas que no filme, se estende além disso. O chapeleiro é quase um personagem tão importante quando Alice, que tenta atos heróicos para ajudá-la em sua missão de destruir o reinado da Rainha Vermelha para que a Rainha Branca assumisse de novo, seu trono por direito.

Ah, quase ia me esquecendo de comentar: no filme de Tim Burton, há uma mistura entre as duas obras de Carroll : “ Alice no País das Maravilhas” e “Alice no País dos Espelhos” – segunda essa que não tive oportunidade de ler – trazendo à trama uma heterogeneidade que a diferencia da história que nos recordamos quando crianças, com as lembranças que temos do desenho.

Porém, não podemos querer uma cópia fiel da obra literária. Como disse Zeca Camargo em seu comentário sobre o filme, se o filme fosse uma cópia fiel da obra, não teria tanta graça e tanto impacto, como teve com as licenças poéticas que Burton fez para torná-lo mais interessante. E quem fala aqui, é uma fã de carteirinha da Alice, que se fascinou com a nova versão, onde até parece que o Chapeleiro Maluco, estava mesmo maluquinho pela Alice, e eu quase cheguei a torcer para que ela ficasse por lá, pelo mundo subterrâneo a fazer chapéus e tomar chá para todo o sempre.

E porque sempre está o Chapeleiro a tomar chá? Ele brigou com o tempo, pois o tempo não é algo, é alguém (“Se você falasse com educação, ele faria com o relógio o que você quisesse”). E agora, que o tempo está bravo com ele, ele parou de correr e são sempre cinco da tarde. Cinco da tarde é hora do chá. Por isso, vive ele a tomar chá sem parar, sempre mudando de lugar. Oferecendo mais chá à Alice, que não entende como tomar mais chá, se ainda não tomou nenhum, mas “mais” é sempre diferente de “nenhum”, e não é preciso entender, apenas tome mais uma xícara.

Vivendo de chá e de charadas sem respostas, o Chapeleiro intriga Alice no conto Original, mas a encanta no filme, onde a mesma charada tem um efeito diferente sobre a menina que está no mundo onde nada é impossível. Qual a semelhança entre o corvo e a escrivaninha? “Não tenho a mínima idéia”, responde ele – o autor da charada, por isso conhecido como maluco, mas essas são as pessoas mais legais.

E assim, tanto no filme, como no desenho ou no livro, tudo acaba como um sonho, pois o mundo real volta para mostrar que aquilo foi apenas uma aventura. Tantos sonhos morrem em poucas palavras, como diz a música. A Alice da música, que esquece do amor e quer mandar uma carta que ninguém quer receber, é uma Alice em muito, parecida com a menininha, ou a jovem da história do País das Maravilhas.

Ela sempre precisa que lhe lembrem das coisas, as idéias que ela tem são temidas, por serem fora dos padrões de normalidade. Ela é tão sincera que é preciso ser treinado para enfrentá-la. “Fica mais uma semana”, Alice. E ela responde: É tarde, é tarde, é tarde! Preciso correr atrás do meu Coelho Branco para viver uma aventura, que seja sonho ou fantasia, mas nesse mundo só meu, o que não fosse, seria. E se eu sou várias no mesmo dia e não sei mais quem sou, só me resta reinventar meu mundo de maravilhas. Nós, crianças de todas as idades.

By Alice (Vulga Nine)

Links Interessantes:

http://letras.terra.com.br/kid-abelha/46794/ (Música)

http://colunas.g1.com.br/zecacamargo (Com os ótimos textos que o Zeca escreveu)

http://sorrisodogatodealice.blogspot.com/ (Apenas pelo nome)

http://sigaocoelhobranco.zip.net/ (Apenas pelo nome)

Trailler:



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Duelo Legionário: "O Descobrimento do Brasil" (Legião Urbana) X "Índios" (Legião Urbana)

O post dessa semana era um tema que queria falar semana passada, mas foi preciso adiar por idéias urgentes que brotaram de última hora. Porém, ele não vai acontecer de novo, será novamente adiado, visto que outro tema me surgiu, e que não pode ser adiado. Idéias que já estavam em minha cabeça para serem postas em prática na semana do descobrimento do Brasil e do dia do índio, vão vir agora à tona. Pra tal fato, me utilizo do poeta revolucionário que tanto falava de nosso país em letras protestantes. Renato Russo, em duas canções da Legião Urbana: O descobrimento do Brasil X Índios.

Aparentemente sem nada em comum, O Descobrimento do Brasil e Índios se assemelham quando vomitam seus anseios não satisfeitos. Cada qual à sua forma, mas com o desejo latejante de tornar palpáveis suas inquietações, permitindo-as serem saciadas.

Em “O Descobrimento...”, Renato fala sobre um amor abstrato,não realizado (“Será que você vai saber o quanto penso em você com o meu coração?”), idealizado (“Quem modelou teu rosto? Quem viu a tua alma entrando?” – ele enxerga muito além do rosto, e consegue sentir a essência da alma que lhe é tão cara), com marcas suaves que lembram sua infância (“A tia Edilamar e a tia Esperança...”) e com o amargo sofrimento de quem se sente invisível perante os olhos de quem ama (“Quem está agora ao seu lado? Quem para sempre está? Quem para sempre estará?”).

Ele reforça que o objeto do seu amor ama a outro, e que é algo sólido e difícil de quebrar, pois as famílias se conhecem bem. Tudo o que ele quer, é lugar, papel passado, com festa, bolo e brigadeiro, um canto sossegado, um pouco de sossego. Será pedir demais? Como atingir aquilo que nós queremos, e às vezes, nem estamos sonhando tão alto assim? Ao início da letra, ele diz estar pensando em casamento, mas não quer se casar. Ao final, ele diz ainda pensar em casamento, mas diz que ainda não pode se casar. A vontade mudou, mas isso não o possibilita suas concretizações, pois ele é rapaz direito, e foi escolhido pela menina mais bonita. Mas ela não lhe pertence e ele não se acha no direito de chegar aos seus sonhos de forma desonesta.

Já em Índios, Renato mostra sua indignação por um mundo que está ao contrário e ninguém reparou. Mundo esse no qual, as pessoas se acostumaram a viver, sem se deixarem abalar pelo caos instalado. Um mundo onde as pessoas podem levar embora até o que não temos. Onde cortamos panos-de-chão de linha nobre e pura seda, pois é cada vez mais comum em nós banalizarmos o que nos é raro e caro. Porque o ritmo frenético em que vivemos não nos permite separar o precioso do podre, o joio do trigo, e assim, misturamos tudo numa coisa só, sem dar a cada coisa, seu devido valor.

Ele diz que o que aconteceu ainda está por vir, pois tudo se repete a todo instante. As mesmas histórias, os mesmos erros, as mesmas ladainhas e falsas promessas. E também diz que o futuro não é mais como era antigamente. Bons tempos que não voltam, onde tudo era melhor do que agora. E o futuro será ainda pior do que hoje. E nesse jogo de antíteses, onde tudo se repete e nada é igual, ele prossegue dizendo que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante, porque nosso ponto de saciedade vai se modificando conforme vamos atingindo novos patamares. E falamos demais quando não temos nada a dizer, porque precisamos preencher o silêncio com palavras vazias, perdendo a preciosa oportunidade de contemplá-lo. Martin Luther King diz que “Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam”. E acrescento dizendo que o fim também chega quando falamos demais ao não termos nada de útil a acrescentar.

Nesse mar de lamentações e queixas revolucionárias, ele segue idealizando o mundo que sonha. Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante. Mas nos deram espelhos, e vimos um mundo doente. Doentes, somos nós, que não enxergamos nada além das nossas vaidades, sem olhar no espelho e ver nossa infinidade de defeitos muitas vezes irreparáveis, por esbarrarem no nosso próprio ego. Por não abrirmos mão de nós mesmos e enxergar além.

Não dá pra entender como um só Deus ao mesmo tempo é três, quando se quer o perigo e se sangra sozinho, pois isso não traz ninguém de volta, nem a si mesmo: Só quando conseguimos entender as dores que causamos no outro, começamos a enxergar que deixamos o Deus que nos salvou ficar triste sem nada fazer.

Acho que todos deveríamos acreditar por um instante em tudo o que existe, e acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes, pois só assim, poderemos fazer a nossa parte para que tudo dê certo e para que tudo passe apenas de sonhos utópicos. Acho que merecemos algo além de ser atacados por sermos inocentes.

Nós, acomodados e revolucionários reprimidos, nada mais somos do que índios andando em círculos nos nossos rituais de sobreviver, nos vitimizando de inocentes aos ataques injustos, quando na verdade, podemos pegar nossas lanças e lutar pela nossa liberdade, que nos permitirá redescobrir o país inteiro que há dentro de nós, e que ele não seja careta e covarde.

Temos que descobrir a melhor forma e o melhor caminho que nos levem ao doce equilíbrio de aceitar as nossas limitações, sem nos tornarmos indiferentes com as coisas que podemos mudar para melhor. Só assim, poderemos transpor barreiras e verdadeiramente amar. Não só nossa família, amigos, amores. Mas nosso país, nosso “Eu” que faz a diferença. E todos aqueles que queremos que percebam o nosso coração. Como queremos ser vistos?

Será que você vai saber o quanto penso em você com o meu coração? Descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim. E é só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. Mas quero ver. Brasil, mostra a tua cara, confia em mim. Não venderemos todas as almas dos nossos índios em um leilão.

By Nine

Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/46959/

http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/92/

terça-feira, 13 de abril de 2010

Encontros e Despedidas (MIlton Nascimento) X Só de Passagem (Pitty)

“Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força

que acordarás as fúrias do pálido e do frio,

de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,

de sol a sol sonha através de tua boca cantante.

Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.

Não quero que minha herança de alegria morra.

Não me chames. Estou ausente.

Vive em minha ausência como em uma casa.

A ausência é uma casa tão rápida

que dentro passarás pelas paredes

e pendurarás quadros no ar.

A ausência é uma casa tão transparente

que eu, morto, te verei, vivendo,

e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.” (Pablo Neruda)

O texto dessa semana, para não fugir à regra, foi parido num tempo maior do que deveria. Mas dessa vez, tenho o álibi, um assunto que justifica. É adiar o inadiável e estender por um tempo maior, o que inevitavelmente chegará, cedo ou tarde. Mas na verdade, é muito além do que eu planejava fazer. Quando pensei nas músicas em questão, estava com uma idéia inicial. Fatos nos últimos dias, colaboraram para expandir minhas idéias, aliados às influências que andei lendo, e como resultado, não sei onde essa bomba vai explodir.

Explico-me, para que entendam que o objetivo pode ser um, e o resultado final ser diferente: a minha idéia era falar da vida. De como estamos nesse mundo de passagem, entre erros, acertos, tropeços e saltos, tentando fazer valer a pena, tendo sempre pessoas ao nosso redor que nos influenciam. Tendo crenças que nos influenciam, tendo percepções do mundo que nos influenciam. Para isso, escolhi duas músicas que cabem certo com a minha idéia inicial. Daí pensei: como falar de vida e não abranger parte impreterível dela? Então, vários pensamentos relacionados à finitude da vida, me vieram à mente. E sim, no meio de tudo, falarei dela, a temida, ou a salvação. A evitada ou o fim do sofrimento. Morte, entre de forma sutil aqui, para que todos possam refletir sobre você, dessa vez com um novo olhar. Vamos lá, vamos pelo menos tentar.

Grandes influências de hoje, Milton Nascimento e Pitty, me ajudam com “Encontros e Despedidas” e “Só de passagem”. Não sei nem por onde começo. Se exponho minhas idéias e depois falo das músicas, ou vice-versa. Mas vamos tentar focar, e começar pela músicas, visto que são protagonistas desse blog.

Milton Nascimento fala de uma música que sempre me foi meio familiar. No tempo de escola, o meu Eu de catorze anos escreveu, certa vez, uma redação que falava sobre a vida. Falava sobre a vida como uma viagem de trem, onde podemos descer em várias estações para realizar grandes feitos, mas descer ou não é uma opção nossa, e reembarcar é nossa falta de opção, porque se ficarmos ali parados, não iremos a lugar algum. O embarque é só de ida, e se passarmos toda a viagem sem descer em estações para conhecer novos lugares dentro de nós mesmos, chegaremos ao fim da viagem sem ter tido nada de proveitoso. Okay. Chega do meu Eu de catorze anos, que foi desacreditada pela professora quanto à autoria. Ela queria saber qual livro utilizei, mas isso não vem ao caso.

Encontros e despedidas, de uma forma ou de outra, fala disso. E fala mais, fala do mundo de lá. O outro lado da vida. Ele quer saber noticias de lá, e saber quem está desse lado. Ele quer ser recebido por pessoas queridas, independente de que lado da vida esteja, seja a finita, seja a eterna. Ele gosta de poder partir sem ter planos, e poder voltar sempre que quer (espíritos são livres, espíritos só passam por aqui), nas nossas idas e vindas ao longo de várias vidas pela eternidade. A vida se repete na estação (mudaram as estações, nada mudou), o que mudam são apenas os protagonistas, com histórias parecidas ou divergentes, porém o que não podemos é ser coadjuvantes da nossa própria história. Tem gente que veio só olhar. Que sejamos quem chegue pra ficar, ou aqueles que vão pra nunca mais, para ancorar em um porto diferente, mas deixando uma marca de eternidade por onde passamos. E assim, vivendo a sorrir e a chorar, chegamos e partimos, de encontro aos dois lados da mesma viagem. A hora do encontro é também despedida, porque toda partida é a chegada a um outro lugar.

Momento de fechar ciclos e finalizar etapas. E de reencontros tão antigos que ficaram no esquecimento em nossa memória. A plataforma dessa estação, são as vidas que adiam sem explicação. Vidas que Pitty mostra por um olhar passageiro em “Só de passagem”. Ela diz que não é nada daquilo presente no universo em que vive, e sim está naquela situação de forma temporária, como um caixeiro viajante a espera do próximo destino. Não tenho cor nem cheiro, eu não pertenço a lugar nenhum. Porque posso estar em todos os lugares sem estar acorrentada a nenhum deles. Ela mostra nossa existência como uma fotografia. Um registro de um momento, um recorte no tempo, onde estávamos naquela cena, sob aquela lente, naquele foco, vestindo aquela identidade. Mas não significa que ficaremos ali, parados, com sorrisos congelados, pela eternidade.

Nada me toca, nem aprisiona. Como diz Paulo Leminski, “Esta vida é uma viagem, pena eu estar só de passagem”. Eu possuo muitas coisas, mas nada disso me possui. É como aquela história de “Desejo que ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga à ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem.”

O lance, é não inverter as peças do jogo e as ordens dos fatores, porque isso vai alterar todo o resultado final. Eu posso possuir coisas, mas não posso me aprisionar a elas, deixando que elas me possuam. É mais ou menos isso que as pessoas materialistas sentem. Elas são tão presas ao que tem e ao que desejam ser, que esquecem a que vieram e o que verdadeiramente são. E o que essencialmente importa. O necessário não é possuir nada. E tampouco se deixar possuir por invólucros temporários. Que sejamos espíritos livres, que passeiam por aqui, sem explicação, acima da carne e do metal.

Que aceitemos a complexidade que é viver e que consigamos lidar com o fantasma da finitude da nossa existência material sem nos assombrarmos diariamente, quando na verdade, deveríamos agradecer por cada dia que podemos nos reinventar e sermos algo novo. Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer, li certa vez.

Não há separação, nem distinção entre matéria e espírito. O que existe é uma liberdade maior quando conseguimos enxergar além dos nossos olhos. Eu posso (e devo) viver o aqui, e o agora, que pode ser o primeiro ou o último momento dentro desse minúsculo espaço de tempo na eternidade onde nos tornamos suscetíveis ao acaso fatídico. Esse espaço onde se valoriza demais pequenos gestos que fazem grande diferença, porque uma oportunidade perdida pode jamais ser recuperada.

O autor de “O Pequeno Príncipe” diz que o que se leva da vida, é a vida que se leva. Então, esse barco, quem conduz somos nós, tendo ou não experiência em navegar. Teremos que aprender a lidar com o mar calmo e o turbulento, sem ninguém para nos dizer pra que lado girar o leme. Mas devemos aproveitar as circunstâncias para nos fazer crescer em nossas certezas e nos permitir novos horizontes, sendo sempre nós mesmos, certos de que não seremos os mesmos por toda a eternidade, pois só o que está morto não muda. E querendo ou não, somos todos eternos, e estamos agora, infinitos enquanto duramos.

E se houver uma pedra bem grande no meio do caminho? E se uma encosta cair e tivermos que mudar o rumo, pegando um atalho ou um caminho mais longo? E se for tudo diferente do que planejamos, sonhamos? Se levarmos uma vida que não foi a almejada? Respondo parafraseando Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já não têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre ao mesmos lugares.É o tempo de travessia...E se não ousarmos fazê-la,teremos ficado para sempre,à margem de nós mesmos.”

Então, nossa próxima parada: viver o agora. Eternizá-lo. Porque devemos viver como se fossemos morrer no próximo segundo, para não gerar arrependimentos futuros. Frases clichês, que todos cansamos de ouvir, eu sei. Mas quando se trata de morte, muitos sentimentos entram em pauta: dor, irreversibilidade, saudades, inconformismo, indignação, impotência. E por aí vai.

Como diz Martha Medeiros, morrer é um verbo carregado pra se falar da nostalgia que a saudade traz, mas talvez seja o mais real. Porque a única saudade não saciada é a de quem não volta mais. Na nossa mente que entende que morte é o fim, é separação, é um eterno abismo entre duas almas que estavam ligadas, e que agora, tem um vão de separação. Um vão simples, na verdade, alcançável com um pulo. Um pulo de fé, esperança ou credibilidade no futuro que nos aguarda e no sentido que precisamos encontrar em nossas vidas. Não devemos esperar sermos poeiras de estrelas para que possamos brilhar. As próprias estrelas morreram há tanto tempo e querem continuar eternas.

Mas a nossa eternidade não começa quando a vida termina. Ela começa em atos bem vividos e palavras bem colocadas, nas frases certas, no tempo devido. Nos sentimentos vividos com a intensidade de um romance shakespeareano. Um velhinho barbudo e grisalho, adorado por toda a garotada que é fã do bruxo mais famoso do mundo, disse uma frase interessante: “Para uma mente bem estruturada, a morte é apenas a etapa seguinte”. Porém é muito difícil alguém estar tão estruturado que no momento da perda e da separação, tenha estrutura para agir com naturalidade diante do que deveria ser natural a todos nós. Ainda temos dentro de nós um algo, uma fagulha divina, que nos faz sensibilizar e nos sentirmos amputados em alguma coisa. É essa mesma fagulha que nos mantém como pessoas que podem fazer algo por um mundo melhor, porque ainda deixamos sangrar dentro de nós, emoções sinceras por algo temporariamente irreparável.

Morrer não dói, já dizia o poeta, que diz que as borboletas só vivem 24 horas. Mas isso é só uma questão de opinião. Há quem ache a morte bem dolorosa, para quem vai, e sobretudo, para quem fica desse lado. Acontece que certas coisas existem, independente de acreditarmos ou não. Independente da nossa fé e dos nossos princípios. A morte é uma dessas coisas. E todos temos que encarar isso, tendo preparo prévio ou não. O fato de que a vida continua (e se entregar é uma bobagem) também. Seja como vida eterna, seja com a pluralidade das existências, seja como for, e com o que se queira acreditar. Mas o fim absoluto não existe. O que existe, é o recomeço para algo novo. O para sempre, sempre acaba. E recomeça. Para dar lugar ao que é eterno. E aí, começo a pensar que nada tem fim. E não tem explicação, não tem, não tem...

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces, porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida. E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados, para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada, que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada.”

(Ausência - Martha Medeiros)

By Nine

Links das Letras:

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Do Fundo do Meu Coração (Roberto/Erasmo Carlos) X É mágoa (Ana Carolina)

Pra variar, o post dessa semana veio com atraso. Sete dias depois, eis-me aqui, terminando mais uma espera. O tema é simples e complicado ao mesmo tempo. Não tem quem não tenha sentido e quem não tenha ouvido falar, mas o turbilhão de sensações que o tema nos faz sentir, aumentam a minha responsabilidade em algo tão frágil e difícil de abordar: a dor de um amor não resolvido. Ou o fim de um amor que urge em viver. Ou apenas, dor de cotovelo, se assim preferirem. Pra tal feitio, uso de “Do fundo do meu coração”, de Roberto e Erasmo - que aliás, fica belíssima na voz da Calcanhoto – e “É mágoa”, da intensa e sentimental Ana carol.

Falar desse tema é algo desafiador, pois exalta a parte hemorrágica que há em mim, que adora e necessita falar de dor de cotovelo, porque cada um tem uma visão tão diferente dos sofrimentos de amor,e é sempre bom ver uma situação por novos ângulos.

Começo meu ritual: leio as letras e começo ouvir as canções em pauta, e sangra pelos meus poros uma vontade de falar tanta coisa que me vem à mente e não consigo traduzir em palavras. Droga. No fim das contas, vou ser incompleta. Mas quando se trata de fim, é assim mesmo. Sempre nos sentimos amputados, faltando um pedaço vital nosso, que não entendemos como sobreviveremos sem.

Na letra de Roberto e Erasmo, o fim é tratado com lamentos e uma mágoa dolorida. É um alguém que se lamenta ainda amar e se entregar a um outro alguém, que pouco se importa com as feridas que abre nesse coração que ama sem receber amor. E essa pessoa, intensa, que ama e teme dizer seus sentimentos cada vez que é questionada sobre eles, esquece do seu orgulho, se sufoca em sua solidão, esquece o desprezo que sofreu e tenta novamente se entregar, achando que agora, será diferente. E percebe a estupidez quando o doce fica amargo e o sorriso do abandono é indiferente às cicatrizes que permanecem sangrando em sua alma.

Já Ana, não padece muda curtindo a sua dor. Ela grita. Ela tem raiva, mágoa viva, latejante em seus olhos coléricos, de quem tem pulsando dentro de si a vontade de se libertar de todo o mal que a indiferença aos nossos sentimentos nos faz sentir. Ela já diz de antemão, que está com três pedras na mão, portanto, que o semeador desses sentimentos passe longe. Ela diz que “só queria distância da nossa distância”, como quem quer distância de estar longe, porque sente saudades e quer ficar perto. E ao mesmo tempo, como quem quer distância disso tudo, porque não agüenta mais a situação e quer mesmo sair procurando uma contramão.

Ela sabe que cada um devia ficar na sua, mas quer, de toda forma, atingir quem a fez sofrer. E quando tenta fazer isso, se arrepende, por que lá no fundo do seu coração, teme acertar quem ela queria acertar. E quando vê que não dá em nada, percebe que não tem nenhum valor, porque não conseguiu acertar o coração. Pior que ter boca e não falar, ter olhos e não ver, é ter coração e nada sentir. E ela via um coração que era imune a qualquer atitude dela.

Ana, se vê como o alvo, de tanto que tinha sofrido. Na canção de Roberto, ele também se vê como alvo, carregando consigo as cicatrizes desse amor que o faz ficar ali, chorando a mesma dor e tendo que saber como é viver sem a pessoa amada. Ambos se sentem sós, um que tinha até a sua solidão na dela, outro, depois de tanta solidão, não querendo a volta nunca mais. Acabe com essa droga de uma vez, não volte nunca mais pra mim. E se eu for embora, não sou mais eu. Porque eu, nunca iria embora e te deixaria pra trás. Só que água de torneira não volta pelo ralo. E eu vou embora como ela. Adeus. Ponto final.

Será que com o fim decididamente decretado, tem-se a garantia do fim da dor lacerante?

A raiva, não ajuda em nada. Lamentar, muito menos. Porque nenhuma dessas alternativas é garantia de um coração mais leve e uma vida mais aliviada, se libertando dos fantasmas que tanto nos angustiam. Somos meros mortais, choramos água com sal. Mas o que tem uma importância relativa pra nós, fica guardado em um lugar especial, um lugar inatingível que não gostamos que seja afetado, nem destruído. E por isso, as dores demoram a se curar, porque não queremos nos libertar de tudo aquilo, porque a parte sonhadora que há em nós ainda acredita que um acontecimento extraordinário irá mudar o rumo das coisas e consertar os erros, fazendo a relação ser retomada de forma mágica.

Grandes acontecimentos milagrosos só acontecem em filmes água com açúcar, e a realidade é um pouco mais amarga que isso. Uma relação não precisa apenas de amor, porque ele só não basta. Ela exige, sim, muito esforço de ambas as partes e o reconhecimento dos passos errados, para que não se estabeleça uma guerra de culpas que termina em tragédia.

E se nada adiantar, ainda há a renovação. Todo fim leva ao começo de algo novo. Temos medo do novo, e de reviver situações e repetir sofrimentos, mas só há como saber vivendo, experimentando, porque as delícias que nos envolvem devem ser degustadas como pratos únicos e sem nos lambuzarmos, que gosto tem?

Citando uma frase de um filme bom que vi esses dias, “500 dias com ela”, a menina, ao aconselhar o irmão, que está abalado pelo fim de um amor que ele acreditava ser mais perfeito que tudo, lhe mostra, que na verdade, não era bem assim que as coisas funcionavam. Mas era apenas esse o ponto de vista dele da relação.

E ela lhe diz “Quando você olhar pra trás, dê um segundo olhar, e tente não ver apenas o lado bom”. Com isso, ela o faz perceber que esse amor perfeito era apenas uma ficção de sua mente, porque no fim das contas, amor mesmo, só ele sentia. E amor é um fluxo de ir e vir, não pode simplesmente ir e não voltar, ele precisa ser retroalimentado.

“Pra terminar, dizer que o amor chegou ao fim, esqueça de me perguntar se ainda há amor em mim”, diz Ana em outra canção. Porque quando ainda há amor de uma das partes, a sensação de fim não chega, fica uma idéia de “pausa para intervalo” como se a qualquer momento fossemos apertar o play e seguir em frente, mas não é assim. Isso de “dar um tempo” não funciona, porque, ou o amor existe, ou não.

Quando o tempo do amor passa, e o tempo age no desgaste dos sentimentos que deveriam se renovar todos os dias, não há nada que possa ser feito além de encerrar decentemente uma história que teve começo, meio e fim. E o final feliz? Fica pra mais tarde, após virar a página e iniciar o próximo capítulo. De preferência, sem repetir os erros. Contando coisas bonitas. E até lá, devemos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe tanto pra trás, o mundo começa agora. E nós, apenas começamos.

(Obrigada, Boa noite.)

By Nine


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quarta-feira, 10 de março de 2010

Luiza (Tom Jobim) X Beatriz (Chico Buarque)

O post dessa semana é especial pra mim, por dois motivos: pelo NOSSO dia internacional e por falar de músicas com um significado especial: Luiza, de Tom Jobim e Beatriz, de Chico Buarque. Músicas especiais porque parecem traduzir o infinito particular que existe em cada uma de nós, pequenas deusas em terra de mortais. Luiza é especial em particular pra mim, porque um dia, do meu ventre para o mundo, a Luiza brilhará. E Beatriz, cuja musa inspiradora de Chico se chama...Marieta Severo, sua ex-esposa, que é atriz. Ser atriz. To be atriz. Beatriz. Logo, fala um pouquinho de todas nós, "Beatrizes" ou não. "Atrizes" ou não, mas que somos protagonistas das nossas próprias vidas. Autoras dignas de oscar das nossas histórias reais.

Beatriz é como uma bailarina, leve e delicada, dançando por onde quer que passe. Ela é moça, porque podemos ser jovens em todas as idades. É triste, porque carregamos fardos, por vezes, demasiadamente pesados. É ao contrário, porque viramos do avesso e temos fases: TPM, euforia,tristeza, melancolia. Ela é pintura, perfeita, feita à mão: é um quadro e uma escultura, com mil perfis em um só, como toda boa atriz: é estrela, divina, comédia, mentira. São papéis que interpreta, em lares que habita, com paredes de giz, frágeis e passíveis de desmoronar, como louça, que evaporam como éter, são insanos como a loucura, pré-montados para espetáculos como cenários de sua vida. Nada é constante, nem ela o é. Um dia, dança no sétimo céu. Em outro, chora num quarto de hotel.

Pra entrar em sua vida, é preciso aprender a andar sem os pés no chão, é aprender a arriscar-se, pois "para sempre" é por um triz. É preciso não temer
desastres, tragédias, terremotos, porque pode ser perigoso ser feliz.
Sempre há quem peça bis, nós somos todas meio assim. Divinas estrelas a decorar nossos papéis, bailarinas de outro país, prestes a despencar do céu, mas com um anjo a nos passar o chapéu.

Luiza é o outro lado que há em nós, que flutua, navegando no azul do firmamento, entre um silêncio em câmera lenta e um trovador cheio de estrelas. Amadores apaixonados tentam esquecê-la, mas são aprendizes do seu amor: eles desejam sempre os desejos dela, e querem ser exorcizados por essa vontade incontrolável de matar a sede de paixão que ela desperta.
E ela se mantém forte, aparentando distância. Embaixo dessa neve mora um coração?

Acorda, amor, que existe um coração que bate, uma mente que seduz, uma alma enigmática que atrai os sete mil amores guardados somente pra ela. Ela, com raios de sol nos cabelos, rosas na boca e um céu inteiro ao seu dispor, com uma lua a iluminar os sonhos e com as estrelas de um trovador envolvido pelo seu mistério.

"Luizas" e "Beatrizes" ganham canções de seus admiradores. "Luizas" e "Beatrizes" nada mais são do que as nossas versões, nossas faces, nossas vidas paralelas que convergem em um só ponto. A multiplicidade de um ser ímpar. O universo de sentimentos que se resume em um sorriso ao receber uma flor de um apaixonado, uma lágrima com o nascimento de um filho, uma lembrança de um momento especial, um novo patamar alcançado.

Todas somos bailarinas equilibristas, sensíveis, resistentes, choronas, determinadas, sensuais, princesas. Andando na corda bamba entre o nosso lado doce e o lado amargo, e despertando a fera, o bicho, o anjo e a mulher que existe no íntimo das nossas essências. Em comum, temos: esse ar de mistério e sedução, que desperta o amor, a proteção, o desejo, a paixão. E um pouquinho mais. E nesse vai-e-vem, entre arriscar, cair e se reerguer como mulheres maravilhas, continuamos. Sem parar de dançar. São dois pra lá, dois pra cá.

By Nine

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Todos estão mudos (Pitty) X Todos estão surdos (Roberto Carlos)

Meu post dessa semana, era a idéia que eu tinha pro meu post da semana do Natal, que não chegou a ser feito, como eu disse no meu último post. Quando surgiu a idéia de unir essas duas músicas, pensei em falar do silêncio de um mundo que urge em gritar por socorro, sem forças sequer pra sussurrar por piedade. Então, passou a semana, e as idéias ficaram adormecidas, até que foram acordadas no susto essa semana, com mil pensamentos. Para vomitar essas palavras surdas desprovidas de som, meio mortas, meio cinzas, me utilizo de Pitty e Roberto Carlos em “Todos estão mudos” X “Todos estão surdos”.

Prezando o cavalheirismo já extinto, começo com a Baiana do rock. Ela fala dos gritos suprimidos da nossa sociedade alienada que perdeu a coragem em botar a cara pra bater em algum espaço de tempo tão fullgás, que não nos demos conta desse conformismo que nos dominou e roubou nossa voz. E não só a voz. Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?

Com certeza não foi o peso do silêncio, que mudo, consegue eviscerar nossos pensamentos e paralisar a parte pensante e questionadora que existe em nós. Aquela mesma parte que é capaz de fazer algo pra transformar tudo. Essa parte nos foi ceifada em vida, dilacerando nosso caráter, fazendo sangrar a nossa fé. Nos esmagando por inteiro. Nos fazendo esperar eternamente pela salvação que nunca virá nos acometer em nosso sofá conectado 24 horas aos plim-plims excitantes que nos levam à loucura entre um vilão indo preso em horário nobre, um show de intrigas e traseiros ao sol, e um gol antes da novela da vida real.

Já o rei da geração brilhantina glostora, fala de algo que todos almejamos desde sempre, mas que a humanidade jamais conheceu: paz. Poderosa palavra de três letras, com um significado jamais alcançado por nós, mas que está dentro dos sonhos de todos que tem um pouco de sensatez. Ele diz que todos temos paz dentro de nós, apenas desconhecemos isso. E que poderemos perceber ao fechar os olhos e vermos o que diz nosso coração. Isso me lembra algo que li num livro, dizendo que a paz não é aquilo que vem depois da tempestade. É você estar no meio da tempestade mais turbulenta, e isso não afetar você. E permitir que a paz te persiga por mais que tudo pareça caos e dor, porque na verdade, é assim que tudo é em 99% das vezes, e assim continuará sendo.

Mesmo que a violência acabe, mesmo que a desigualdade se desmanche. Sempre haverá algo que trará o caos, até porque em teoria, o caos é a constante movida pela inconstância que nos rodeia. Voltando à letra, ele diz que o amor é importante e blá, blá, blá. Que não importa os motivos da guerra, a paz é mais importante e mais blá, blá, blá. Estamos cansados de saber disso tudo, mas preferimos ficar perdidos no labirinto dos pensamentos poluídos pela falta de amor. Sabemos que a covardia é surda e só ouve o que convém. E ela não ouve os clamores e as frases de outrora, que trazem os gritos suprimidos dos nossos ideais perdidos em eleições populares.

Como resultado, temos tanta gente sem fé num novo lar (logo, sendo novo ou antigo - penso eu - é indiferente. O problema não está onde se mora, e sim quem mora, o que pensa, no que crê e se alimenta esperanças renovadas quando tudo parece estar se renovando em sua vida – os que deixaram o fracasso lhes subir à cabeça). Mas existe o bom combate, de não desistir sem tentar. É desse que precisamos. É por esse que urgimos. É esse que deve nos perseguir. Com um grito que acorde a humanidade inteira, fazendo os mais surdos escutarem e os mais mudos bradarem. Acho que na verdade, todos não estão surdos, tampouco mudos. Esse título, de certa forma, acaba sendo um desrespeito imperdoável a todos os deficientes que estão muito mais antenados ao som do mundo e as vozes de compaixão.

Se eu pudesse unir as duas letras, em um título, diria que todos estão alienados. De uma forma tão severa e miserável, que parece que uma areia movediça nos faz afundar cada vez mais. E nem com o perigo iminente, temos a nossa covardia partida e voz pra nos fazermos ouvir. Não espere, levante. Sempre vale a pena bradar. É hora, alguém tem que falar. Que sejamos nós, pessoas que se recusam a ter os neurônios em estado de coma induzido. Não forcemos o grito abafado dos que não tem voz. Vamos unir nossas vozes em uma só, porque só assim, não haverá quem não consiga bradar. Martha Medeiros, em um de seus textos, diz mais ou menos assim: O mundo é um imenso playground que cultua deuses errados. Mas se prestarmos atenção nos detalhes, teremos uma visão mais abrangente e alcançaremos a paz.

Que possamos ouvir os gritos abafados. Que possamos falar o que está preso em nós. Porque senão, a tendência acaba sendo que, além de alienados em nosso pequeno universo, nos tornemos cegos ao que está a nossa frente.

By Nine

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Tempo Perdido (Legião Urbana) X Tempos Modernos (Lulu Santos)

O post dessa semana foi como um repente, após uma gestação prolongada. E pari-lo, foi infinitamente difícil para mim. Após três semanas sem escrever aqui, pela correria das festas de final de ano, fiquei frustrada. Afinal, passei um bom tempo planejando os 2 últimos posts do ano – o da semana do natal e do reveillón – e eles não chegaram a nascer. Não dei adeus ao ano que findou como eu queria – e deveria, diga-se de passagem. Então, como já não tinha mesmo realizado os posts para fechar o ano com letras de ouro, falando de todo o sentimentalismo do espírito natalino e da renovação das esperanças com a chegada de um ano novo ainda bebê, estou eu aqui, na primeira semana do ano.

No primeiro post desse ano redondo, que traz com ele, um turbilhão de sonhos recém saídos do forno, vou pra minha idéia...De primeiro post do ano. E de onde surgiu essa idéia? Bem...confesso não ter sido muito criativa, visto que todo mundo que reflete sobre essa época, escrevendo, cantando ou guardando para si suas impressões ou expectativas, tem em mente um novo começo de era. Tempos novos chegando, sejam eles modernos, ou que se percam no final. Me usarei de Legião Urbana e Lulu Santos, para abrir o ano com Tempo Perdido X Tempos Modernos.

Engraçado, que tinha planejado que o primeiro post de início do ano seria um prospectivo - do ano que está chegando. Quase sem querer, foi isso que aconteceu, pois acabei de tirar meus neurônios da paralisia das boas festas.

Nada melhor pra abrir o ano...Eu adoro legião urbana, mas isso todos devem saber, a essa altura do campeonato. Pelo menos os leitores assíduos ou ocasionais. O jeito revolucionário de Renato fica estampado nessa letra, onde ele diz que acorda todos os dias com a sensação de não ter mais o tempo que passou, como se as lembranças fossem inexistentes. Mas diz que ainda tem muito tempo, tem todo o tempo do mundo, por ser jovem. Em outro momento, ele diz que não tem tempo a perder. E ele fala isso ao falar do suor sagrado de todos aqueles que se matam de trabalhar enquanto vêem suas próprias vidas passando pela janela e dando tchau. Mas reforça que isso ainda é mais bonito que o sangue selvagem dos burladores da lei.

É uma visão em preto-e-branco de alguém que esquece o que acontece nos seus dias que se seguem arrastados, devido a ter a sensação de estar perdendo tempo – e vida – trabalhando (honestamente a vida inteira, e agora não tendo mais direito a nada), não vendo a cor dos dias que se seguem, e perdendo a esperança da sua juventude, que está ficando marcada em máquinas, não em sorrisos e lembranças guardadas com afeto. Como resultado, percebe-se medos não assumidos e a carência de presenças reais para coisas simples, como um abraço, uma luz acesa, uma promessa verdadeiramente cumprida. Tempo ganhado, manhãs brilhantes, a juventude de volta. E ter o seu próprio tempo. E o controle sobre o rumo da sua própria vida.

É nessa melancolia de esperanças partidas como o final de um ano exaustivo, que Renato carrega sua letra de melodia que começa com inesquecível solo de guitarra. Mais esperançoso, Lulu crê num futuro com dias melhores, não porque tudo está correndo limpo e claro como numa bossa nova que fala de alegria, mas porque, sua visão além do alcance, transcende os muros de hipocrisia que insistem em nos rodear, sufocar e tragar a nossa alma para o mundo de aparências que leva ao sucesso e à solidão.

Ele consegue enxergar uma vida mais repleta de prazeres e sensações, que outrora Renato desconhecia, por viver imerso em obrigações que o cegavam para o sentido e a beleza do resto. Ele fala de amor. Amor sincero, pra todos nós. Amor real, não só o platônico. Não só o virtual. Não só o inatingível de novelas de horário nobre e filmes estrelados por celebridades Hollywodianas que escondem suas vidas frustrantes em longas-metragens com trilhas de chorar de emoção. A emoção da platéia, gente simples, mas feliz. Não aquela mesma encenada para receber o Oscar.

É essa platéia que vai fazer um novo começo de era, pois é gente fina, elegante e sincera. Não estou dizendo que o povão está repleto de gente honesta, não sou a hipócrita do começo da letra. Até porque ser gente fina ou gente grosseira, independe de classe social, raça e religião. Mas bem verdade, é que todo mundo deveria ser gente fina. Como diz minha queridíssima colunista do Globo, Martha Medeiros, “Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar. Gente fina não julga ninguém – tem opinião, apenas. Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.”

E toda essa volta, pra dizer que eu vejo (e quero) um novo começo de era, porque cansei de ter tempo perdido. Quero ganhar mais. Não só na megasena da virada. Não só dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Quero ganhar sorrisos, abraços, tempo para estar ao lado de quem eu amo. Não só um bom emprego que me mantenha estável e me garanta uma boa aposentadoria, mas fé para não desistir, acreditando que o mundo pode ser melhor e que eu não vou deixar de fazer a minha parte, mesmo que remando contra a maré.

Como será o amanhã? Eu sou péssima de previsões, e aprendi a me libertar delas, vivendo esse segundo que me permite respirar e torcendo para que o novo seja melhor ainda. Sem esperar, mas recebendo de bom tom. O ano acabou de nascer, não tenho mais o tempo que passou, mas temos muito tempo. Temos todo o tempo do mundo? Acredito que sim, pois somos jovens, e apesar do sinal estar fechado pra nós, temos nosso próprio tempo. Mas hoje, o tempo voa, amor. Escorre pelas mãos. Mesmo sem se sentir. E não há tempo que volte, amor. Vamos viver tudo o que há pra viver. Vamos nos permitir. E só por hoje, eu vou me permitir ser feliz. É esse meu lema para esse novo começo de era, porque o tempo não vai mais escorrer pelos meus dedos. Sou eu quem vou dançar sob suas horas, a trilha sonora da minha vida. Vem comigo? Feliz vida a todos nós.

By Nine

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