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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"Por Enquanto" (Legião Urbana)

A voz no alto-falante anunciava que eu deveria embarcar no meu vôo. Demorei a escutar, estava viajando, em algum universo paralelo, perdida entre lembranças. Não devia ser a primeira nem a segunda vez que a voz falava que era chamada final para o embarque, e quando fui voltando à realidade onde me encontrava, o aeroporto, pra dentro do meu eu, me direcionei ao portão de embarque, com o cartão de embarque e o passaporte na mão e o coração na boca.

Éramos como irmãs, desde pequena. Crescemos juntas, sendo cúmplices uma da outra, fazendo descobertas, guardando segredos, dividindo intimidades e tendo um mundo onde ninguém além de nós poderia entrar. É o que as pessoas entendem como uma amizade que transpõe o limite da vida, do tempo, da distância. Aquilo indestrutível, que é mais espiritual do que a fé de muitos falsos profetas.

Éramos inseparáveis. Dormíamos trocando confidências, aprendemos juntas a andar de bicicleta e éramos sócias do nosso restaurante imaginário, onde eu cozinhava, ela fazia entregas a domicílio com a minha caloi pelo quintal de casa. Ninguém entendia o fato de ela me entender em coisas estranhas. Ninguém entendia o fato de eu entender ela, quando ela parecia magoar meu coração. Mas era tudo além disso: um laço eterno, sujeito a momentos difíceis que eram superados com provas de amizade.

Lembranças, eram incontáveis, infinitas...O tempo passou, e crescemos juntas. E as provas de amizade foram ficando mais difíceis e elaboradas, mas sempre estavam ali, mostrando o devido lugar de cada uma na vida da outra. Até aquele dia, onde tudo mudou por um motivo que ninguém lembra ao certo qual é. E tão parecidas, donas do mesmo gênio, se trancaram em suas dores, sem compartilhá-las, como era de praxe. Só o tempo, e a necessidade de ter aquela parceria, as trouxe de volta àquela amizade, alguns anos mais tarde, mas aí já era tarde pra algumas coisas.

Algumas descobertas, alguns momentos e fases deliciosas de se repartir, já haviam passado, sem deixar neles, marcas de alegrias compartilhadas.

Agora, ela morava do outro lado do oceano. Não era fácil de chegar, sequer de usar o telefone. Mas a sintonia telepática continuava, e quando elas se precisavam, sentiam, e sabiam que deveriam se falar.

E assim, à distância, aos trancos e barrancos, foram recuperando o tempo perdido, e voltaram a ser as mesmas de sempre, como se o tempo não tivesse passado. Aparentemente, pelo menos.

E num dia, sem mais nem menos, percebo que ela não está bem, são problemas maiores que ela. Está lá, sozinha, longe do alcance da minha ajuda, e do meu apoio. A culpa vem, teria sido tudo diferente se aquele abismo de alguns anos não tivesse existido. E agora, ela é um outro alguém, que mudou com o tempo e as experiências de uma pessoa que não é mais uma menina. A vida teve que lhe ensinar, “é preciso saber viver”, sozinha, longe de casa, longe do porto seguro.

Sempre tive orgulho disso tudo, e pensei que não conseguiria no lugar dela. Mas o preço, às vezes é alto demais, e temos que saber se vale o risco de ousar ser feliz longe de tudo, sendo que o tudo é essencial pra nós.

O sorriso dela não era o mesmo, e eu podia sentir pelo tom da sua voz. E eu sei que alguma coisa aconteceu, ta tudo assim, tão diferente. Não havia diferença antes, nos tempos em que chegamos a acreditar que tudo era pra sempre, mas o pra sempre, sempre acaba. E isso eu fui aprender bem depois.

E mesmo assim, não me importava, só queria resgatar ela de volta. E sabendo de como estava tudo lá, aos extremos, tomei a decisão de pegar um avião, sem avisar, sem pensar em mais nada. E salvá-la. Do mundo, das pessoas e dela mesma.

Ela, que era tão diferente lá, longe das origens que ela tinha. Diferente e sozinha, e até meio triste, como nunca fora antes. Não dá pra ver só um lado dos nossos sonhos, eles precisam saber coexistir, pra que uma parte de nós não morra com a parte sufocada dos nossos desejos.

Não sabia como seria recebida, não nos entendemos quando nos falamos pela última vez, e falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém. Mas eu precisava. Depois de tanto tempo, de tantas diferenças e de tanta distância emocional, dar uma prova de amizade, mais uma, entre tantas.

Quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade, se alguém levasse embora até o que eu não tinha. E eu não tinha mais nada, eu precisava arriscar.

Mudaram as estações, e nada mudou, pelo menos pra mim. E agora, estou aqui, prestes a embarcar. Tomei a decisão tarde demais, e agora não tem mais o que fazer.

Mas não importa o que você pense, diga, sinta, nada vai conseguir mudar o que ficou, pois quando penso em alguém, só penso em você. Aí então, estamos bem, irmã.

Nunca gostei da idéia de finitude, e me mata saber que o pra sempre, acaba um dia.

E mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, eu dei a prova, como nos velhos tempos.

Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz.

Estou indo de volta pra casa... E te trago pra sempre, no coração.

By Mônica

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/46970/

"Eu Queria Ter Uma Bomba" (Barão Vermelho)

Hoje eu com certeza não vou pra faculdade... – pensa Arnaldo ao acordar e ver aquele Sol forte brilhando lá fora. Não, ele não está com ressaca, ele só terminou o namoro na noite passada.

Arnaldo é um daqueles universitários que adoram livros que dizem que o amor é um sentimento inatingível, escrito por pessoas que nunca sequer se apaixonaram.

Ele namorava Flávia, estudante de medicina, metódica e dois anos mais velha. Ela até acreditava em amor, mas morria de medo de se entregar e se machucar, como nas histórias confidenciadas pelas amigas.

Arnaldo e Flávia namoravam há dois anos, eles se conheceram por intermédio de um amigo em comum, e tinham um relacionamento intenso, cheio de paixão e companheirismo, mas que não foi capaz de agüentar ao inferno e céu de todo dia. E foi aí que eles perceberam que o amor na prática é sempre ao contrário.

O relacionamento deles já não vinha bem fazia um tempo, só que eles achavam que aquela era uma crise normal entre um casal. Mas de uns tempos pra cá, eles sempre voltavam com as mesmas notícias e já não eram mais o veneno anti-monotonia um do outro. Na manhã de ontem, Flávia ligou e disse que precisava falar algo sério com ele. Arnaldo sentiu um frio na espinha, mas tentou suprimir qualquer expectativa negativa durante todo dia.

Eles se encontraram nas Pedras do Arpoador às seis e meia da tarde, no momento em que o Sol ficava entre os Dois Irmãos (esse foi o cenário de muitos encontros deles, Flávia dizia que os momentos mais felizes deles haviam sido vividos naquele lugar, com o mar como testemunha). Flávia deu um abraço apertado nele e Arnaldo retribuiu com a frieza de quem espera pelo pior, sentaram e deram as mãos para verem o Sol se pôr (eles sempre ficavam calados nesse momento). Quando finalmente o astro rei sumiu no horizonte e o Hotel Marina acendeu as luzes junto com o Vidigal, ela perguntou pro Arnaldo se ele se lembrava do primeiro encontro deles naquele barzinho na Vinícius de Moraes, ele sorriu e disse que nunca se esqueceria do sorriso dela naquela noite. E ela respondeu que ficou hipnotizada pelos olhos verdes dele.

Um silêncio dilacerante tomou conta dos dois, até Arnaldo perguntar se ela queria terminar o namoro. Flávia não conseguiu responder, ficou ali, inerte, imaginando o que havia dado errado entre eles. Arnaldo se aproximou, a abraçou, e acariciou seus cabelos da mesma forma que sempre fazia quando ela estava triste, e ainda sem dizer uma palavra, Flávia se deixou aconchegar nos braços dele, e os dois ficaram ali por mais meia hora sem trocar uma palavra. E assim como há dois anos, eles se beijaram, e tudo que ele queria naquele momento era um flit paralisante qualquer, pra poder negar bem no último instante, que aquele era o fim.

Ela levantou e disse que estava indo embora, ele acenou com a cabeça, eles ainda ficaram de mãos dadas por alguns segundos até ela ir de vez. Ele queria não ligar, mas ela era importante demais, e tudo o que ele conseguiu pensar até descer das pedras foi em suicídio.

Flávia parou no mesmo bar da Vinícius, que havia sido o palco do primeiro encontro entre ela e Arnaldo, e pediu um conhaque para enfrentar o inverno que entrava pela porta aberta que o fim do namoro havia deixado em seu coração, porque ele também era importante demais.

E Arnaldo voltou pra casa a pé, tentando entender porque sentia tanto frio, naquela noite quente do Rio, mas antes sentou ao lado da estátua do Drumonnd em Copacabana (era sempre com o Drumonnd que ele filosofava quando estava confuso) e falou com o poeta: “No fim o amor que você dá, é o mesmo que você recebe”. Riu por estar declamando Beatles para uma estátua e disse para si mesmo – o amor só é bom quando dói.

By Eduardo

Link da letra:

http://letras.terra.com.br/cazuza/907917/

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Oito Anos" (Paula Toller)

“Queria voltar a ser criança porque os joelhos ralados curam bem mais rápidos do que um coração partido.”

Depois de passar um longo tempo sem escrever aqui, volto. Os posts dessa semana estão mais que atrasados. Idéias legais que vieram à mente pro dia das crianças e por turbulências no caminho, ficaram arquivadas. Edu, como sempre, com o texto pronto no prazo, e eu, protelando, até que hoje tomei coragem pra terminar a gestação desse texto de dia das crianças. Parindo a idéia de voltar no tempo, pois o passado me traz uma lembrança do tempo que eu era criança, usarei de Paula Toller na fofíssima “Oito Anos”. Letra que mostra toda curiosidade do filho da compositora, e é uma forma deliciosa de viajar na máquina do tempo de volta à “melhor idade”.

Quem não lembra de como é ter oito anos?

É já saber ler, é aprender a andar de bicicleta, é ser um pequeno filósofo, levantando grandes questões que parecem não ter resposta. Mas por quê? Por quê?

É esperar pelo natal, e ele nunca chega. E esse misterioso Papai Noel? Ouvi dizer que não existe, mas eu já vi! Será que descobri um segredo que nenhuma criança sabe?

Lembro do cheiro de pipoca doce na saída da escola quando eu tinha oito anos. E de acreditar que o país das maravilhas era no fundo do meu quintal, com suas árvores enormes e tantas flores diferentes, algumas dormiam quando a gente tocava nelas, e só acordavam segunda-feira!

Por que existe bicho com cara de palhaço? Cen-to-péia! Porque se eu encostar o dedo nela dói? Porque a manga da blusa tem o mesmo nome da fruta da mangueira? Por quê?

E nesse mar de fantasias sem pé nem cabeça, entre casas engraçadas, sem teto e sem chão, e perguntas infinitas, nós viajávamos. Até crescer e esquecer de perguntar os porquês. Qualquer resposta nos satisfaz, e não questionamos mais. Por quê?

Por que o céu é azul? Me explica a grande fúria do mundo. Por que existe fúria no mundo? Ele não é um país das maravilhas. Por que as pessoas só são felizes pra sempre nos contos de ficção? Como se escreve reveillon?

Well, well, well, Gabriel...

Por que os dedos murcham quando estou no banho? O que significa “Impávido colosso”?

Não sei, vamos aprender juntos?

Por que os ossos doem enquanto a gente dorme? Por que as ruas enchem quando está chovendo?

Porque é isso que acontece se a gente jogar lixo no chão.

Por que as unhas crescem? Por que o vidro embaça?

Não sei, nessa você me pegou.

Porque os dentes caem? Por onde os filhos saem?

Ops...Vamos chamar seu pai pra explicar?

Se as nossas perguntas que afundam sem respostas fossem tão simples quanto as que circundam o universo de uma criança, seríamos mais confiantes das respostas. Mas seríamos mais felizes?

Perdemos com o tempo, a nossa capacidade de questionar indeterminadamente. Hora ou outra, cedo ou tarde, uma resposta qualquer vai bastar para nos calar. Onde foi parar a magia? Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?

Por que deitar agora? É tarde, e você tem que ir pra escola amanhã.

Por que as cobras matam? Elas só se defendem, quando se sentem ameaçadas.

Do que é feita a nuvem? De algodão doce.

Do que é feita a neve? Aposto que é de sorvete.

Quem é Jesus Cristo? O melhor Homem que já existiu.

Quanto é mil trilhões vezes infinito? Por que o fogo queima? Por que a lua é branca?

Por que o sangue corre? Por que você se pinta? Por que que a gente espirra? Por que que a gente morre?

- Muitas perguntas não tem respostas, sabe.

- Mas por quê?

- Eu gostaria de saber. Com o tempo, você entende.

- E por que o tempo passa?

- Well, well, não sei Gabriel, não sei. Queria ficar aqui pra sempre.

By Mônica (A mãe do Gabriel, que um dia vai existir.)

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/paula-toller/211582/

"Ciranda Bailarina" (Chico Buarque)

Mais uma vez após 15 dias de recesso não-forçado, Monica e eu voltamos ao blog para escrever sobre um tema bem mais ameno do que os últimos que antecederam as eleições: o Dia das Crianças.

A idéia que tínhamos era postar textos politizados até a semana das eleições e depois coisas mais leves, mas como não postamos na semana da votação, voltamos a postar agora na semana das crianças e a partir de semana que vem, voltamos aos textos mais “cabeludos”.

Devo avisar que temas lúdicos nunca foram o meu grande forte e falar sobre o as crianças e seu dia, é um grande desafio, mas creio que não devo falhar, porque até pouco tempo acreditava que o feriado de 12 de outubro era por causa do dia das crianças e não por causa da padroeira do Brasil.

A música escolhida para este post é “Ciranda da Bailarina”, maravilhosa composição letrada por Chico Buarque, musicada por Edu Lobo e fantasticamente regravada por Adriana Partimpim.

Mudando brevemente de assunto, acho um crime, as eleições sempre serem realizadas no mês das crianças, principalmente, porque na política todo mundo tem unha encardida e dente com comida, só a bailarina que não tem.

No país do futebol e das maracutaias, todo mundo comete pecado assim que acaba a missa, quer dizer... Todo mundo que não seja mais criança, e infelizmente andamos perdendo nossa inocência muito rapidamente num país onde criança aprende a ser adulto vendendo bala no sinal e não indo à escola. E se todo mundo tem marca de bexiga ou vacina, tem piriri, tem lombriga e tem ameba, só a bailarina que não tem.

Não vim escrever este texto para criticar nada, vim apenas deixar meu lado mais lúdico falar, não quero esbravejar nada contra ninguém, quero apenas dizer que a coisa mais humana que temos a fazer nestes tempos, que para se candidatar à vaga de herói é preciso falar inglês aos 10 anos de idade (mas para ser deputado não precisa saber ler e escrever), quem não tem medo de subir, medo de cair e medo de vertigem? A bailarina, ela não tem.

Existe coisa mais linda nesse mundo do que uma criança feliz? O sorriso de uma criança é uma porta para o céu, e adulto nenhum tem o direito de roubar a inocência dos pequenos, e se o padre pode até ficar vermelho, se o vento levantar a batina e se reparando bem todo mundo tem pentelho. Só a bailarina que não tem.

Todas as crianças deveriam ser como a bailarina, quer dizer... Não aquela bailarina que está em cima do palco e não tem calcinha meio velha ou sujo atrás da orelha, e sim aquela que vai de mãos dadas com a mãe pra aula e só se vestiu de bailarina porque gosta e não se importa se a roupa não tem nada a ver com o momento, ela é feliz, e é isso que importa, afinal, quando crescemos e envelhecemos não é isso que procuramos?

Todo mundo tem que ter remela quando acorda às seis da matina, bigode de groselha e um irmão meio zarolho. Porque sala sem mobília, goteira na vasilha e problema na família, mais cedo ou mais tarde, todo mundo tem... Quer dizer, todo mundo menos a bailarina, já que nem primeiro namorado ela tem. Vai ver porque desde cedo ela tinha uma agenda tão cheia que não deu tempo de ser criança.

By Eduardo

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/chico-buarque/85948/

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"Vento no Litoral" (Legião Urbana)

Hoje acordei num dia daqueles. Dia cinza, árvores dançando com o vento e um baú de memórias se abrindo, bagunçando meus sentimentos desorganizados, que custam a se comportar. Eles insistem em não esquecer, o que fez com que até a terapia não tenha trazido resultado.

Era tarde nostálgica, como as preferidas de Anne. Ela adorava filosofar sobre as inquietudes do mundo ao som do sino dos ventos. Em dias como hoje, sinto mais falta dela do que nos demais. Pareço estar num vazio infinito. E hoje, isso pode piorar.

Abro gavetas, procurando por fotos, por cartas, por lembranças. Por qualquer coisa que Anne tenha tocado. Por algo que ainda tenha o cheiro suave das mãos dela. Por algo que ela tenha quebrado na tentativa de consertar, e eu guardei, porque eu nunca ficava bravo, era um eterno colecionador das suas desventuras. Acho a foto. Aquela, onde ela está mais radiante. Foi nosso primeiro dia junto ao mar, pelo menos daquela forma. E ela parecia criança com brinquedo novo, quando viu os cavalos- marinhos num lago formado pelo mar entre as pedras. Adorávamos ver o pôr-do-sol ali, sorrindo, nos amando e amando mais nossas existências por termos um ao outro.

Hoje isso é apenas fotografia antiga na minha gaveta, se apagando com o tempo, como provavelmente se apagará o rosto de Anne da minha memória com o passar dos anos e o avançar da idade, e não poderei evitar. E isso acaba comigo. Me mata um pouquinho a cada dia, com a tentativa de que morrendo em vida, eu possa ter direito a um último desejo e vê-la novamente, com o intuito de nessa condição, estar mais perto dela, mesmo sem poder tocá-la. E o sorriso vai ficando fraco, como a fotografia que não tem a mesma luz de outros tempos.

Todos sempre acharam louca demais a nossa história. Insana demais para dar certo. Quantas pessoas você conhece que encontram o amor de suas vidas de cara e são felizes para sempre?

E quando nos encontramos no universo imenso, achamos o nosso próprio espelho. E largamos o mundo, para podermos segurar um ao outro. Casamos, porque nos amávamos. Tivemos um filho, porque dividir o amor por dois era insuficiente e precisávamos estender isso para uma parte em comum de nós dois, a fusão de um amor que não tem fim.

“Tudo muito precipitado” - é o que todos diziam. E não ligávamos, e fazíamos tantos planos, que uma vida inteira não parecia suficiente para pôr em prática.

E agora, tenho que criar forças nessa tarde vazia, e eu não quero ir lá, onde todos vão no dia de hoje. Não é lá que vou encontrar ela. Ela era diferente, e marcou pela eternidade nossos encontros à beira mar.

E subi nas pedras, as mesmas de sempre, deixando o vento no meu rosto levar com ele a dor que parece nunca ter passado. Sei que faço isso pra esquecer. “Já fazem três anos, cara” – digo a mim mesmo. E a linha do horizonte me distrai. E dá um aperto no peito quando sinto falta dos planos que fazíamos, diante de um futuro planejado.

Eu sei, não foi minha culpa. Fiz tudo o que pude. Ela não me culpa. Mas deveria ser eu, não ela. Não depois do que houve ao nosso bebê. O pra sempre, sempre acaba...Mas nada vai mudar o que ficou.

E do meu lado, ninguém. Ninguém pra olhar comigo na mesma direção. Sinto sua falta todos os dias, Anne. Aonde está você agora além de aqui, dentro de mim? Quando penso em alguém, só penso em você.

O mundo nunca entendeu o que só nós podíamos sentir. E agimos certo, sem querer. Foi só o tempo que errou. Ele te tirou de mim cedo demais. Está muito difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo. E lembro das suas conversas insanas que me arrepiavam, dizendo pra seguir em frente e ser feliz, caso você não pudesse estar comigo. As ondas quebram mais forte nas pedras, e eu lembro que a vida continua, mesmo contra a minha vontade. E você dizia, que se entregar é para os fracos, não passava de bobagem. Lembra que o plano era ficarmos bem? Mas eu não consigo seguir sem você, Anne. Já que você não está aqui, o que posso fazer é cuidar de mim.

Ei, olha o que tem aqui. Cavalos marinhos. Lembra?

Me levanto, e dou mais um adeus, entre tantos. E deixo a onda me acertar. E o vento vai levando tudo embora...

By Mônica

Link da Letra:

http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/22505/

"Pedaço de Mim" (Chico Buarque)

Bom... Acho que estou em dívida com as pessoas que acompanham este blog e que esperavam que nas semanas que precederam e na semana após a eleição, Mônica e eu postaríamos textos politizados. Infelizmente a correria e falta de tempo não nos permitiu parar e postar nada (prova disso, é que o texto para o dia das Crianças já está pronto, e eu estou aqui escrevendo para o dia de Finados).

Passada uma primeira explicação, acho que é hora de tirar minha mente da inércia em que ela se encontra e escrever, e como não poderíamos deixar passar (de novo) em branco, o texto dessa semana é inspirado pelo dia de Finados. Dia que nós lembramos daquelas pessoas que fizeram parte da nossa vida, mas que já se foram (prematuramente ou não). E para falar deste tema, eu utilizo “Pedaço de Mim”, do mestre Chico Buarque, que destila sua melancolia para nos mostrar como a saudade dói.

Chico é um gênio ao narrar situações e sensações do nosso cotidiano (sem trocadilhos), e em “Pedaço de Mim”, ele nos mostra a dor de uma pessoa que perdeu alguém que lhe era muito querido (em nenhum momento ele explica o que a pessoa que se foi era realmente do eu-lírico da música, por isso eu também não vou estreitar nenhum tipo de laço afetivo).

Essa pessoa, é um pedaço de mim, é a metade que me foi arrancada e agora a saudade dói como um barco que evita atracar no cais, e deixa apenas a lembrança de dias que jamais voltarão, porque a essência daquela pessoa não volta e não importa quantos anos passem, a dor não cicatriza.

E essa saudade, ela é como um revés de um parto, como uma fisgada de um membro que já perdi. Ela é o rosto salvo na memória, mas que não renova as expressões. A saudade de alguém que amamos é tão brutal, que chega a ser nossa presença mais sentida.

A saudade é tão cruel quanto arrumar o quarto do filho que já morreu, e sentir ali o cheiro e os sentimentos depositados naqueles objetos que não vão fazer com que aquela pessoa que foi exilada de mim volte, e isso é pior do que o esquecimento.

A saudade é uma dor latejada, é o pior castigo para as pessoas que conseguem criar laços, vínculos. Arrancar de nós alguém que participou de nossas vidas, que esteve do nosso lado nos melhores e piores momentos é o pior tormento que pode existir, e só quem já sentiu essa dor, pode dizer de verdade o que a outra pessoa está sentindo.

Por isso que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque numa manhã de sábado ou numa tarde de domingo, a notícia que nós não queremos ouvir pode ser dita pela boca de alguém que jamais entenderá o que é a dor da saudade.

E eu não quero levar a mortalha do amor. Adeus!

By Eduardo

Link da letra:

http://letras.terra.com.br/chico-buarque/86030/

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"Pedra, Flor, Espinho" (Barão Vermelho) X "Pense e Dance" (Barão Vermelho)

“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”

(Clarice Lispector)

Primavera chegou, e eu sempre volto a falar de flores, ou pelo menos tentar. Daí, fiquei a pensar em músicas que me trouxessem flores para as pautas que eu vou rabiscar, e lembrei do meu primeiro post aqui, que falava justamente sobre flores, onde usei músicas especiais, de Titãs, Legião e Barão. Ah! Barão! Tem aquela música legal...Que fala de flor, mesmo que metaforicamente, ou apenas no nome. Com o que combinar uma letra tão boa? Perguntei ao Edu. Só eles estão a sua própria altura para tal feitio. Depois de várias “finalistas”, enfeito o jardim que começa a florir nessa primavera, com “Pedra, flor, espinho” e “Pense e dance”, ambas do Barão Vermelho.

Mas que flores são essas que não falam de amor, e só falam de desejo? E quem disse que não há desejo no amor? São aquelas teorias furadas de que o amor é o “sem graça”, “sem fogo”, “água com açúcar”, o inocente e intocável dos sentimentos. O oposto daquela tal de paixão, a avassaladora que tira a pureza e o juízo de quem ousa pensar em seu nome. Blá, blá, blá, tudo besteira, fingimento e encenação, visto que amor é continuidade da paixão, tanto quanto letra e melodia, sol e calor, chuva e arco-íris. E essas “flores” falam disso. Primavera desperta aquela sensação de romantismo, Romeu e Julieta, com açúcar e afeto, que só acenderá o fogo quando o verão chegar, com o seu calor e desejo de sentimentos ardentes numa noite quente à beira mar.

Como eu sou ansiosa e intensa em tudo que eu sinto, eu promovi a primavera, parafraseando os meninos do Barão, que dizem que hoje não querem ver o sol. E eu desprezo os dias cinzentos, vou pra noite, tudo vai rolar (“A noite vai ser boa, e tudo vai rolar...”). Saudações a quem tem coragem, aos que tão aqui pra qualquer viagem. Automóveis piscam os seus faróis, sexo nas esquinas, violentas paixões. Não é disso que nos alimentamos hoje em dia? Sair e ver no que vai dar. Compromisso pra que, se de tudo posso aproveitar um pouco, sem a nada me apegar?

Pra que perder tempo desperdiçando emoções? Não fique esperando a vida passar tão rápido, pois se você quiser, tudo pode acontecer no caminho. E não me diga não, não me diga o que fazer, sou eu quem escolho e faço os meus inimigos. E as minhas verdades eu invento sem medo, não me venha falar de medo, todo mundo tem um pouco de medo da vida. Eu não esqueço de quem um dia amei, e não penso em tudo que já fiz. Não me fale de você. Fale de você. Que eu quero ver você, e exorcizo as minhas fantasias. Quero te satisfazer, ser o seu maior brinquedo. Eu faço tudo pelos meus desejos, para que grilar com pequenas provocações, se esse seu ar obscuro é o meu objeto de prazer?

Eu quero te ter, ataco se isso for preciso. Alimento todos os desejos, e se você quiser, eu bebo o seu vinho. Não me diga não, o seu instinto é o meu desejo mais puro, e o meu coração é só um desejo de prazer, e eu rasgo o couro com os dentes. Não quer flor, não quer saber de espinho. Mas se você quiser, sou pedra, flor, espinho. E beijo uma flor sem machucar. Nenhum desejo pode ser mais excitante do que amar de verdade.

Penso como vai minha vida - Vida vazia, de jogos de poder. Eu que domino, mas não sou egoísta. É que o mundo é o meu eixo pra eu girar em torno de mim mesmo - Olhos negros, olhos negros. Olhos que procuram em silêncio, ver nas coisas, cores irreais. E eu aproveito pra sonhar enquanto é tempo, pois a felicidade é um estado imaginário.

Saudações a quem tem coragem, e não me venha falar de medo, pois é preciso pensar – antes de descartar um coração com desejos puros. E dançar - conforme a música da vida, que passa tão rápido. Desprezando dias cinzentos, beijando flores sem machucar. Deixando-se cortar pelos espinhos, e voltando inteiro para quem um dia amei. Sendo pedra, flor, com sonhos, enquanto é tempo.

By Mônica

Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/barao-vermelho/44429/

http://letras.terra.com.br/barao-vermelho/79053/

"Brasis" (Seu Jorge) X "Babylon" (Zeca Baleiro)

Mais uma semana se passou e cá estou eu para escrever mais um texto neste espaço utópico. Vou retomar o meu projeto e escrever texto politizado (sei que após ler este trecho a maioria das pessoas não vão continuar lendo, mas isso é só mais um incentivo para que eu continue a escrever), aproveitando a proximidade das eleições. Garanto a todos que após o período eleitoral irei utilizar músicas mais suaves para meus posts, mas até lá, vamos seguir em frente.

As escolhidas para esta semana foram “Brasis”, do Seu Jorge (artista que considero superestimado e que sinceramente não me diz muito a que veio) e “Babylon”, do (grande) Zeca Baleiro, que na minha opinião, é um dos melhores compositores da nova geração. Para que não fique nenhuma dúvida sobre o porquê d’eu ter escolhido uma música do Seu Jorge, mesmo sem simpatizar muito com sua obra, justifico que a minha escolha ocorreu, porque momentos antes de escolher as letras a serem utilizadas para este post, Monica me apresentou esta composição, e eu imediatamente achei que valeria a pena correlacioná-la com a letra de Baleiro. Então, aqui vou eu e vamos ver no que isso vai dar.

Começando pela composição de Seu Jorge, vou dissertar sobre os vários Brasis que o compositor expõe em sua letra. Um Brasil que é negro, branco e nissei, mas que só oferece oportunidade para quem nasce em berço esplêndido e é filho do Brasil próspero, porque aquele que não muda continua indo à luta e batendo bola, sem nunca ir para escola.

Existe o Brasil que é lindo e exposto em conferências internacionais nos vídeos dirigidos e super produzidos por diretores de cinema, mas as pessoas felizes que aparecem neles, são pagas para disfarçar as angústias e incertezas do outro que fede e apanha. O país que nunca muda é a herança de anos de maus governos que nunca se preocuparam com os índios, mamelucos e cafusos que compõe a grande massa deste país de proporções continentais. Gostaria de um dia descobrir quem é que paga pra gente ficar assim.

O Brasil que soca e chuta é o mesmo que apanha, o que empresta dinheiro ao FMI é o mesmo que pede para poder suprir suas obras, que são superfaturadas pelos que andam de gravata. Aquele que faz amor e anda de sunga, também é o que mata, e depois vai à passeata pedir paz e saúde para as crianças do país inteiro, que sucumbem à fome e a desigualdade social, grande marco da nossa democracia.

Enquanto o Brasil segue sendo esta eterna contradição, aqueles que são eleitos para mudarem alguma coisa, esquecem do povo que o elegeu e quando assumem seus cargos, se mudam para nossa Babylon do Centro-oeste, dão Au revoir a ralé, e fazem das suas vidas um souvenir Made in Hong Kong e vão passear de iate no Lago Sul.

Comprar o que houver (e vender a ética), finesse s’il vous plaît, mon Dieu. Je t’aime politique, litros de Manhatans são tomados todas as noites enquanto o futuro do país é decido por pessoas que não estão nem aí pro povo, que mesmo acordando muito cedo e indo dormir muito tarde, mantém sua cabeça em pé e sua confiança em um Brasil melhor inabalável.

Eu que não tenho dinheiro pra sair com o meu broto e nem renda pra descolar a merenda, cansei de ser duro e vou correr atrás de um pindorama* que possa ser meu porto-seguro, onde eu possa desfrutar de suas riquezas sem precisar matar ninguém, curtir suas praias e cachoeiras e descansar à sombra de suas palmeiras.

Nesse país nada vem de graça, nem o pão, nem a cachaça, a gente perde e ganha, sobe e desce e eu quero ser o caçador, ando cansado de ser caça.

*http://pt.wikipedia.org/wiki/Pindorama

By Eduardo

Links das Letras:

http://letras.terra.com.br/seu-jorge/456889/

http://letras.terra.com.br/zeca-baleiro/49374/

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"A Câmera que Filma os Dias" (Ana Carolina) X "Relicário" (Nando Reis)

O post dessa semana faz parte da origem de tudo isso aqui. Afinal, sem amor, eu nada seria. Logo, na semana onde completam dois anos que eu e o Edu nos encontramos no universo imenso, por mar, por terra e via embratel, estou eu aqui, querendo de forma singela, dedicar este post à ele, e ao nosso amor. Pra isso, utilizo duas músicas bonitinhas, cujas letras tenho alguma afeição, e através delas, posso falar um pouco de como foi o dia em que eu estava em paz quando você chegou, meu amor. Utilizo “Relicário”, do grande Nando Reis e “A Câmera que Filma os Dias”, da Ana Carolina em seus tempos de ótimas composições.

A luz que eu vi naquele dia escuro e ruim, que era uma tarde linda que não queria se pôr, era luz por encomenda para te filmar. E através de teus gestos solitários pela lente sem fim, você invadia mais um lugar onde eu não vou. E eu, entre milhões de vasos sem nenhuma flor, via as ilhas dançando sobre o mar. Mas lento, o tempo parecia desfocar. E tanta coisa escapa sem o olho ver, e o mundo está ao contrário, e ninguém reparou. E eu te vi assim, sem jeito e sem querer. E isso foi o tiro certo para começar nosso enredo.

Não lembro o dia em que isso tudo comecei, mas era um dia de inverno quando você chegou, e se não fosse seu abraço, compraria um moletom. E eu tinha medo de ser um tipo ensaiado, não inventa pose que eu fico invocada. E a lua corria, porque longe vai? Sobe o dia tão vertical, o horizonte anuncia com o seu vitral, que eu trocaria a eternidade por essa noite. Porque está amanhecendo? Peço ao contrário ver o sol se pôr. Porque está amanhecendo? Se não vou beijar seus lábios quando você se for. Como meu dia vai nascer feliz?

E entre o sonho criar asas, na iminência ou não de virar realidade, a vida ia passando no seu vai-e-vem, mas não demora, a porta já fechou ali no armazém. Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me falta? Essa imagem não se cansa de me assaltar. A câmera que filma os dias tomou conta de mim, e passei aquele inverno inteiro a te focar. O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou. Sua cartilha tem o A de que cor? O mundo é azul? Qual é a cor do amor?

E entre trocas de afeto e juras de amor, foi crescendo a sensação de que a vida é melhor, agora que você está no mundo. E eu não quero nada pra mim, eu vim pelo que sei, e pelo que sei, você gosta de mim. E eu guardei a canção que eu fiz pra você pra você não esquecer que eu tenho um coração, e é seu. Por isso eu te transformei nessa canção, pra poder te gravar em mim, como um filme todo em câmera lenta. Porque eu acho que eu gosto mesmo de você, bem do jeito que você é.

E o que você está fazendo? Um relicário imenso desse amor. Quem nesse mundo faz o que há durar? Pura semente dura: o futuro amor. Eu sou a chuva pra você secar. Pelo zunido das suas asas você me falou. O que você está dizendo? Milhões de frases sem nenhuma cor. O que você está fazendo? Por que é que está fazendo assim?

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver. O mundo anda tão complicado, e hoje quero fazer tudo por você. O mundo começa agora. E o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera. Nosso futuro recomeça. Venha, que o que vem, é perfeição.

E o desfecho? Tenho ainda nas paredes que grafitei. A câmera que filma os dias deu um giro e parou. Na nossa história, que não estará pelo avesso sem final feliz. Desde que você chegou, o meu coração se abriu. Hoje eu sinto mais calor e não sinto nem mais frio. E o que os olhos não vêm, o coração pressente. Mesmo na saudade você não está ausente. E em cada beijo seu. E em cada estrela do céu. E em cada flor no campo. E em cada letra no papel. Que cor terão seus olhos? E a luz dos seus cabelos?

Só sei que vou chamá-lo...N.E.O.Q.E.A.V.



Nota: Esse post, em especial não é um correlação de músicas como de costume. É apenas uma declaração de uma exagerada, que por ele larga tudo: carreira, dinheiro e canudo. Até as coisas mais banais. Pra mim é Ele ou nunca mais.

By Mônica

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"Quase Sem Querer" (Legião Urbana) X "Quando Você Passa (Sandy e Junior)

Essa semana o texto tem um assunto pré-determinado, na verdade, tinha uma idéia de fazer só texto com músicas de cunho político neste mês de setembro para aproveitar que seria o mês antes das eleições, mas como nunca consigo seguir cronogramas que eu mesmo crio, vou fugir do tema político e falar de algo que para mim é tão difícil quanto: o amor.

Neste mês de setembro, completa-se dois anos que Monica e eu nos conhecemos. Assim como nas histórias de amor que eu nunca acreditei que pudessem ser verdade, o amor da minha vida chegou na primavera, para me mostrar que eu estava mentindo pra mim mesmo ao achar que não acreditava em amor de verdade, e não acreditar que meu frágil coração poderia acelerar o batimento só com um simples olhar.

Bom, aqueles que conseguem identificar uma música só com simples versos já perceberam quais as músicas utilizadas no texto, mas para quem não percebeu, eu falo... As escolhidas da semana foram “Quase Sem Querer”, da Legião Urbana e “Quando Você Passa”, do duo Sandy e Jr. (não, você não leu errado).

Ok... Vamos lá para mais uma semana de palavras (repetidas) utópicas.

Já disse algumas vezes que não gosto de escrever textos sobre o amor, não tenho talento para discorrer sobre o assunto (na verdade não tenho talento para nenhum tema, mas com os outros eu consigo me virar), sempre acho que meus textos acabam ficando meio piegas. Só que nesta data tão importante para nós, Monica e eu não poderíamos deixar passar em branco.

Peço licença aos leitores deste blog para poder falar diretamente com a musa inspiradora da minha vida e deste texto, a pessoa que tem me deixado distraído, impaciente, indeciso, nenhum pouco confuso e muito tranqüilo e contente. Ninguém usa tantas palavras repetidas como eu, para demonstrar como é grande o meu amor por você, mas todas as outras palavras já foram ditas, e nenhuma delas é capaz de demonstrar o quanto você é essencial para mim. Queria me fazer em mil pedaços para você juntar e já não me preocupo se quase ninguém vê o que vejo, porque eu sei que você sabe quase sem querer, que eu vejo o mesmo que você.

Quem poderia prever um amor tão imprevisível assim? Um amor que saiu das páginas do Orkut, que ganhou forma, que marcou meu dia-a-dia, que me mostrou que não há lógica alguma nos livros e que o infinito é um dos deuses mais lindos, pois, tenho certeza que o infinito é o tamanho do que eu sinto por você.

Não quero te prender e nem dominar seus sentimentos, quero apenas ficar no seu corpo como tatuagem pra ficar marcado a frio, ferro, fogo e em carne viva... Quero decorar seus movimentos, assim como já decorei o seu olhar, que tanto me traz paz e seu sorriso que me deixa sem graça.

Se é amor? Sim, é amor. Porque não existe nada tão correto e tão bonito dentro de mim, por você desafio o instinto dissonante e faço nosso meu segredo mais sincero, porque quero que tudo que seja meu, também seja teu, quero me entregar de corpo e alma ao que sinto por você, meu amor. Sei que não sou mais criança a ponto de saber tudo, mas tenho a certeza, que você é tudo o que quero para a minha vida. Desperdicei muitas chances, querendo provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada para ninguém, enquanto o sentimento entre nós foi crescendo pouco a pouco, e hoje já não nos deixa sós, e se me deixar, eu acho que fico louco, porque sem você não sou capaz de respirar.

Me sinto um anjo caído toda vez que não dou a você todo o amor que trago dentro do meu peito, porque você sempre merece o melhor, e o meu melhor ainda é pouco, já que por você iria a pé de Nova Campinas à Ilha do Governador.

Quero finalizar este texto dizendo como lhe quero tanto e que meu coração faz turu, turu, quando você passa.

By Eduardo

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"Notícias Populares" (Ana Carolina) X "Panis et Circenses" (Os Mutantes)

A idéia para a semana era óbvia como uma equação matemática: falar sobre a independência na semana da independência, onde todos fogem dos desfiles e tudo mais, mas aproveitam o feriado, é claro. Mas difícil foi fazer a escolha, se alegrar com ela, depois de mudar mil vezes e chegar numa escolha nada prevista, porém aceita, devido ao apressar da carruagem: “Notícias Populares”, da Ana Carolina e “Panis et Circenses”, dos Mutantes ilustres na música brasileira, Caetano e Gil.

Ok. Músicas escolhidas. Ops...Mas e a idéia da Independência? Quá. Acho que foi pro brejo, como o nosso país e o respeito que deveríamos ter por ele, em unanimidade, não só em minorias em extinção.

Panis et circenses, ou no melhor, curto e grosso português: Pão e circo. Que é o que os governantes do nosso país nos oferecem como recompensa e atrativo por termos usado nosso poder de mudança pra votar em quem continua a fazer o mesmo que foi feito até agora – porcaria nenhuma. Mas isso não vem ao caso, parabéns pra nós, os donos do poder em uso inadequado. É por isso que devemos ler os manuais de instruções, eles sempre explicam os problemas decorrentes, está tudo ali, compre se quiser.

Ana fala de Notícias Populares, aquilo que atrai o povo – Pão e circo, lógico. Comer porcarias e rir de besteiras, ou vice-versa. É o que a alienação nos permite querer, numa era onde se idolatra o sensacionalismo e nos importamos mais com as crises internacionais (quando pensamos em nos preocupar com alguma causa) do que com a nossa própria desgraça. Mas quem vai querer se importar com a pobreza tirando o seu sarro? O meu vidro já está todo blindado.

Podemos até esquecer a crise da Argentina, mas lá pelas Globos, Bands e Records da vida, temos notícias sobre o Onze de setembro e o Iraque aparecendo até nas TVs das lanchonetes. E quem procura saber se a água se acaba, e se há mendigas descabeladas dormindo na vertical em épocas onde o Código da Vinci ( ou código da Venda) é tão popular quanto os Nikes, bikes, Cocas lights e canivetes do camelô em cheques pré-datados que não estipulam datas para finalizar a nossa miséria material e intelectual? No dia em que S. Eliot, Velvet Underground e Manoel de Barros forem notícias populares, as pessoas vão parar de viver fazendo proveito apenas do pouco que restar.

Os mutantes terráqueos falam das pessoas da sala de jantar. Essas pessoas da sala de jantar. São as pessoas da sala de jantar. Que só estão preocupadas em nascer e morrer, nada que aconteça nesse mero intervalo de tempo chamado vida. Não se importando com as canções cantadas iluminadas de sol, tampouco com os panos soltos sobre os mastros no ar e os tigres e leões soltos no quintal.

Enquanto estivermos mergulhados nessa inércia mental que nos faz sermos essas pessoas na sala de jantar encenando papéis decorados, preocupados somente em nascer e morrer, as notícias populares vão continuar voando pelos ares e ninguém sabe se alguém recua ou se alguém invade. Se alguém tem nome ou se alguém tem fome, pois tanta gente vive só com o que dá pra aproveitar. E não adianta plantar folhas de sonho no jardim do solar, pois as folhas sabem procurar pelo sol, mas nós não sabemos procurar por nós mesmos. É querer demais procurar um ideal, um sonho e uma independência que nunca virá enquanto formos dependentes de cenários pré-montados com desfechos programados em falsos finais felizes com aplausos de pé. Pão e circo cansa, e é pra controlar marionetes, felizes com um cantinho pra deitar e uma bola pra acalmar. Mesmo que seja tudo forjado. Mesmo que seja tudo bossal. Mesmo que seja tudo absurdo. ‘Tudo errado, mas tudo bem...”

Eu furo os planos, eu furo o dedo, “mando vê”, aperto o passo, eu não sou louca. É que tomei um tiro no vidro do meu carro. E quando a pobreza leva meu dinheiro e meu livro caro, deixo que façam bom proveito da grana que roubaram, porque eu trabalho e outro dinheiro eu vou ganhar. Pra que me importar então? Vou ser só mais uma pessoa no ilustre banquete na sala de jantar, apenas preocupada em nascer e morrer, porque o resto exige potencial de mudança demais, e isso pode dar indigestão, nada pode estragar a festa na sala de jantar.

Mandei fazer de puro aço luminoso punhal para matar o meu amor e matei, às cinco horas na avenida central. E ninguém se chocou, afinal, tudo se acaba, olha o noticiário. Como a vida de alguém se acaba antes do final? São as pessoas da sala de jantar. Mas as pessoas da sala de jantar. São ocupadas em nascer e morrer. Independência? Não, não sei o que é...Me dá mais pão? O espetáculo vai começar. Sem segundo turno, espero.

By Mônica

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"Independência" (Capital Inicial) X "Hoje Eu Quero Sair Só" (Lenine)

Depois de uma semana levemente conturbada que se foi e que não teve post, chegamos a tão esperada semana da independência, que para alguns é o momento de comemorar nossa liberdade proclamada por D. Pedro I em 1822 - ano em que nos transformamos em estado soberano (não em nação) –, e para outros é apenas mais um feriado prolongado, momento de recarregar as baterias e cair na farra atrás de rápidos e passageiros momentos de prazer.

Para o post desta semana vou utilizar a “Independência”, do Capital Inicial e “Hoje eu Quero Sair Só”, do Lenine, música e compositor que sempre quis utilizar para renovar meus posts, que admito, andam meio repetitivos.

Começando as divagações utópicas, vamos dissecar a “Independência” do Capital e suas meias verdades.

Não é porque estou utilizando uma música do Capital, que serei hipócrita de dizer que amo tudo o que a banda escreve, pelo contrário, não sou um grande fã da banda de Brasília e nem acho o Dinho um grande letrista, mas “Independência” merece minha atenção, porque sua letra fala de algo que anda muito em voga neste Brasil cada vez mais “independente”: o individualismo. Em época de eleições, ele sempre aparece muito forte.

Acreditamos na distância entre nós? Ou existe alguma outra razão para vivermos assim?

O individualismo crescente na nossa sociedade doente é um monstro que vem nos engolindo, e nos deixando cada vez mais frios com o passar dos anos. Como o Brasil pode mudar, se nós não buscamos mais identidade e resolvemos seguir o rebanho até o abate? Assim como eu, você também não sabe explicar, porque nem a verdade nos sacia mais.

Nesses tempos de reality shows, temos uma curiosidade mórbida pelo que os outros falam, mas quando indagados sobre nossas ações, não gostamos de nos explicar. O brasileiro adora cobrar, adora apontar o dedo, mas o que fazemos de fato para acabar com essas meias verdades que os políticos dizem? Nada! Temos nos conformados cada vez mais com toda essa barbárie que somos obrigados a engolir durante o período eleitoral e com isso só conseguimos nos afastar cada vez mais.

Quando aprendermos a canalizar toda a nossa intensidade em coisas realmente importantes e começarmos a mudar a sociedade, começando essa mudança por nós mesmos, deixando de acreditar que sentimentos frívolos e descartáveis são mais importantes que amizades verdadeiras e companheirismo sincero, aí sim quem sabe poderemos evoluir como pessoas e membros de um meio.

Lenine escreveu um grande relato sobre o individualismo com a sua fantástica “Hoje eu Quero Sair Só”. Desde a frase que abre a música até o seu final ele se mostra como alguém que não quer companhia, alguém que preza sua “independência”, e que como ele deixa bem explícito, essa independência é sinônimo de solidão.

Não é seguro seguir alguém que prefere ser só, já que a solidão não cai bem em ninguém, e como dizia o poeta, é impossível ser feliz sozinho.

Como podemos desejar um futuro melhor para nosso país e como podemos comemorar a independência do Brasil, se nossa sociedade nunca foi tão carente de sentimentos reais, e ir pra rua não é mais sinônimo de mudança, e sim de estagnação e fuga? Enquanto à noite, a Lua nos chama para sairmos só, de manhã o Sol vem socar nossa cara e anunciar toda a barbaridade que continua acontecer e continuará acontecendo, enquanto acreditarmos na distância entre nós.

By Eduardo

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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"Astronauta" (Lulu Santos/Gabriel O Pensador) X "O Astronauta de Mármore" (Nenhum de Nós)

“ - O que você quer ser quando crescer, Aline?”

“ – Astronauta!!!”

“ – Mas porque Astronauta?”

“ – Por que eu vivo no mundo da lua!!!”.

Quem na infância, sob diferentes justificativas abstratas, não quis ser astronauta? Ver a Terra de longe, grande e azul, e milhares de vidas acontecendo na sua frente, e você só enxergando imensidão, estrelas cadentes e...Quem sabe não vê um extraterrestre ou um OVNI? E se eu descobrir um planeta novo onde existem pessoas como nós?

Eu sei, é muita ficção num mundo que já é uma novela por si só, mas são hipóteses que vagueavam pelo meu imaginário, no meu “Eu” de oito anos de idade.

Vamos falar do post dessa semana, e de músicas que eu aprendi a gostar em momentos diferentes, viajando nas letras como se fossem a minha nave especial. Vai que o mundo das maravilhas com o qual eu sonho não se encontra na Terra, mas existe em algum lugar? Viajando pelo universo infinito, peço carona ao “Astronauta” que é uma parceria entre Lulu Santos e Gabriel, O pensador e “O Astronauta de Mármore”, do Nenhum de Nós.

Começo pelo Astronauta de Lulu e Gabriel, que sente falta da Terra, mesmo tendo guerra, gente no bagaço, morrendo de cansaço de tanto lutar por um espaço, e ele lá com o espaço inteiro à sua disposição, quer voltar aqui pro chão, e pra toda essa nossa grande ignorância e nossa vida mesquinha, pois a solidão é tão lacerante que ele prefere essa vida difícil daqui, e o negócio tá feio, tá todo mundo feito cego em tiroteio.

E enquanto as pessoas olham pro alto procurando salvação e orientação, ele está perto de Deus, sabendo as respostas das grandes perguntas e não quer mandar tudo pela internet. Não adianta querer se livrar do peso da responsabilidade, a gravidade somos nós quem construímos, com toda nossa loucura, nossa tortura que nos permite conseguir sobreviver no meio do ódio, mentira e ambição.

E só estando face a face com a solidão, se percebe que nesse planeta doente, só nós podemos achar a cura pra cabeça e o coração da gente, e aí sim, seremos alguma criatura inteligente, como buscamos achar no espaço, definindo-os como nossos similares. Mas vida inteligente é algo longe de existir nessa merda de lugar, então não me mande nenhum e-mail com notícias, porque eu tô de saco cheio e vou me desconectar.

É tanto progresso que eu pareço criança, porque tudo evolui e nada cresce? Engatinho nessa loucura, a Terra é um planeta em extinção. É minha conclusão, nesse mundo de muita gente, onde só se encontra solidão. Cada um de nós dentro da sua própria bolha, em nossas redomas inquebráveis, nos fechando em solidão sem perceber, e fugindo dela, querendo voltar pra Terra. Estamos na Terra o tempo todo, querendo sobreviver, sem colocar os pés no chão e sonhando alto demais, nossos sonhos egoístas e mesquinhos, que valem pouco para repartir.

Vivendo no mundo da lua, no escuro deserto do céu, como astronautas de mármore. Queremos fugir da solidão, mas não usamos o machado pra quebrar o gelo. Queremos dar uma volta na nave, estamos de mala pronta, de partida, com a passagem só de ida, preparados pra seguir viagem, prontos pra decolar, mas a trajetória escapa o risco nu e as nuvens queimam o céu, nariz azul. Será que tenho uma chance de tentar viver sem dor? Vivendo fora de órbita, temos que assumir o risco que o vácuo nos traz e não podemos querer estar aquém do mundo ouvindo as vozes do rádio.

Sempre estar lá e ver ele voltar, não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar. Que bicho te mordeu aí na lua, astronauta, que te fez querer voltar? Você não está feliz onde você está?

A lua inteira agora é um manto negro, estrela por aqui é o que não falta. A lua o lado escuro é sempre igual. E o mundo da lua é feito um motel, aonde os deuses e deusas se abraçam e beijam no céu. E observando tudo a distância, como a Terra é pequenininha. E no espaço, a solidão é tão normal...Desculpe estranho,eu voltei mais puro do céu. O tolo teme a noite, como a noite vai temer o fogo. E o fim das vozes no meu rádio, me fizeram acordar do sonho agora mesmo.

Nós, na Terra, olhamos pro céu e pedimos paz. Queremos viajar sem volta, pra um lugar que nos afaste desse pequeno universo de mentes inteligentes que transbordam loucuras e torturas e não são capazes de absolver a própria solidão. Antes só do que acompanhado demais. Porque preferimos reduzir nossos valores e multiplicar os bens.

Nós, no céu escuro, olhamos pra Terra e sentimos falta. Queremos voltar, pedimos notícias, a solidão é de matar. Como acabar com a solidão do mundo se não somos capazes de resolver nossas dores particulares? Cultivamos o deserto, e não aprendemos a nos curar. O simples mistério de amar. Como os deuses e deusas, no céu...

E o Astronauta, não é de mármore. Apenas de carne, osso, mente e coração. Porque eu não fiquei por lá, que era o melhor a fazer? Com todo aquele espaço na mão, agora eu olho pra lua implorando por paz. Vou chorar sem medo, vou lembrar do tempo de onde eu via o mundo azul...

By Mônica

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"Alagados" (Paralamas do Sucesso) X "Revanche" (Lobão)




Aqui estou eu em mais um dia de escrever para o blog, e como tem acontecido nos meus últimos posts (até com mais freqüência do que imaginei), ando meio sem inspiração, e venho escolhendo as músicas praticamente minutos antes de sentar para exercitar minha verve utópica semanal. Mônica diz que meus textos menos planejados são os mais inspirados, mas ela sempre é meio suspeita para falar.

Hoje as músicas escolhidas são “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso (banda que uso bem menos do que gostaria) e “Revanche”, do Lobão (outro que uso bem pouco, mas nesse caso é mais por falta de envolvimento com sua obra). A primeira música foi uma indicação da Mônica, mas sempre foi uma música que pretendi usar, só que nunca encontrava inspiração para me atrever a rabiscar sobre ela, e a outra escolhida, foi uma pérola encontrada em meu museu pessoal de grandes novidades.

Antes de começar a falar sobre as músicas, devo agradecer ao Edílson por conhecer a música do Lobão, pois foi ele que comentou comigo que esta era uma grande letra de compositor muitas vezes subestimado por sua eterna atitude rebelde e sua metralhadora (sem pontaria) cheia de mágoas.

Bom, chega de blá blá blá e vamos às músicas. A primeira a ser discutida será “Alagados”, indiscutivelmente um dos grandes hinos gerados na revolucionária década de 80, berço musical dos dois artistas da semana.

Herbert Vianna criou uma música cheia de suingue e sangue, uma melodia que mistura ritmos e uma letra que expõe o caos que é o nosso país. Porque para muitos o Sol da manhã é apenas mais um desafio a ser vencido nesta eterna batalha diária que travamos para nos tornarmos brasileiros.

Nós levamos a vida na arte e temos a arte de viver na fé, mas em meio as falcatruas que vemos todas as vezes que ligamos a TV, eu pergunto: Fé em que?

Somos todos filhos da mesma agonia, conhecida mundialmente como Brasil, nossa pátria mãe tão distraída que sempre é subtraída por aqueles que são eleitos com a promessa de acabar com as palafitas, trapiches e os farrapos, mas que quando eleitos, nos negam oportunidades e nos mostram a face dura do mal.


Algo que sempre me deixa pensativo é de onde tiramos esperança por um futuro melhor... Porque com certeza essa esperança não vem do mar e nem das antenas das nossas televisões, que ficam em nossas salas que de forma curiosa são a nossa cela, enquanto somos prisioneiros nas grades do vídeo, que é de onde vemos o Sol nascer quadrado, mas não tem problema, afinal de contas, a gente ainda paga por isso.

Meu conhecimento sobre a obra de Lobão é muito pouco, visto que só conheço seus clássicos e não acompanho o que ele produziu nos últimos anos, mas desde que ouvi “Revanche", sempre achei esta uma das letras mais interessantes e fortes produzidas pelo grande lobo.

No meio da correria da grande cidade, o café, um cigarro, um trago não são mais um vício, e sim companheiros da solidão que assombra a todos que fugiram para as megalópoles como bichos do mato atrás do mito de fortuna e riqueza (somos eternos caboclos querendo ser ingleses), e que acabaram se tornando escravos de um novo rito.

Tentamos acertar o passo usando mil artifícios, mas sempre que alguém tenta um salto, é a gente que paga por isso. E paga um preço alto. Paga com falta de infra-estrutura em escolas e hospitais, com saneamento básico precário e muito miséria, até porque, a miséria nunca acaba, porque dá lucro e é um excelente assunto para todos os demagogos que almejam cargos públicos.

A favela é a nova senzala, e a cidade que tem braços abertos num cartão postal, mas os punhos fechados na vida real, não nos oferece nenhuma chance, nem mesmo a chance de uma revanche contra todos que nos condenam a viver como se estivéssemos em Trenchtown* ou na Favela da Maré (e não digo isso para denegrir esses lugares, mas sim, porque esses lugares são apenas dois exemplos de falta de compromisso dos políticos com o povo que os elegeu).

A única esperança que nos resta, é torcer para que o povo cobre sua revanche nas urnas e pare de capturar tudo que é captado pelas antenas de TV e tenha fé em si próprio e não em falsos profetas, que se autodenominam pais e mães do povo.

Quem é que vai pagar por isso?

*http://pt.wikipedia.org/wiki/Trenchtown

¹ Foto da parte de cima do texto é de Trenchtown na Jamaica

² Foto no meio do texto é da Favela da Maré, o verdadeiro cartão de visitas da cidade maravilhosa

By Eduardo

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